O investimento em Sintra ao longo de vários anos começam agora a ter o seu retorno, através principalmente do crescente turismo que se faz sentir.

O turismo em crescendo em Sintra é salutar, além de fonte de riqueza é motivo de orgulho, mas tem de respeitar toda a envolvência ambiental, social, arquitetónica (ou deve).

Sintra é uma vila pequena com pouca capacidade de escoamento de trânsito e de estacionamento, não é estruturada a pensar na quantidade massiva de pessoas e viaturas que circulam diariamente e isso cria os constrangimentos que já apontei anteriormente. (ver aqui)

Debrucemos nos restantes.

  1. A crescente oferta de serviços turísticos trouxe novos desafios na sua regulamentação, quer sejam os tuk tuks, os serviços de guias, ou o turismo da natureza/aventura. Não é uma boa imagem para quem sai da estação da CP de Sintra a abordagem e o caos que origina. Espero que o recém-criado Regulamento da Atividade Turística seja uma ferramenta adequada e de sucesso. (ver aqui)
  2. Não entendo, e diria mesmo, é esquizofrénica a “gestão” dos espaços verdes em Sintra. Ainda neste domingo reparei no bom trabalho feito ao longo da Volta do Duche, no entanto chegados à fonte em frente ao Museu das Notícias deparamos com um panorama cinzento, também no Parque da Liberdade o desleixo e abandono de várias estruturas e edificado é bizarro. Qual será o motivo e justificação para tal situação?
  3. Na gestão imobiliária existem diversas situações, desde a degradação dos imóveis que ladeiam as escadinhas do hospital, ao Casal de São Domingos** (sendo esta propriedade do mesmo município que faz majoração de IMI a 30% aos proprietários de imóveis degradados)
  4. As condições pedonais seriam em muito melhoradas se os passeios fossem mais largos, e mais adequados para quem se desloca em cadeiras de rodas, ou com carrinhos de bebé.

A Volta do Duche pode ser uma zona de fruição e lazer, e não somente uma zona de passagem. O futuro passa por criar condições de mobilidade suaves e devolver às ruas às pessoas.*
Um pouco à imagem do que se fez na Avenida Heliodoro Salgado mas com mais seriedade.

  1. A pouca dinamização noturna deve ser revista, o que oferece Sintra a quem queira pernoitar na Vila? O silêncio e a beleza da Vila deserta são suficientes para cativar?
  2. Porque motivo o Mercado de Sintra se mantém à margem do “roteiro” turístico? Talvez pelas condições em que se encontra, talvez porque se desconhecem a importância da integração dos mercados na oferta turística. Não seria também uma forma de potenciar os produtos regionais e a pequena produção local, e assim melhorar a economia local e a partilha da riqueza criada pelo turismo?***

No entanto mais preocupante que todos os pontos acima mencionados e diretamente relacionado, desconhece-se o rumo, a política, a estratégia para o turismo em Sintra, não existindo um documento com essa visão, um documento proativo e não reativo.

Será que para a CMS é suficiente ir a eventos de turismo promover a zona? A CMS tem noção de quantos milhares de viaturas e pessoas circulam pela Vila/Serra/Monumentos? Existe uma noção do impacto que isto acarreta para a vila? Para quem nela habita (cada vez menos e mais envelhecidos), para quem nela trabalha?

E da sobrecarga dos serviços? A recolha do lixo por exemplo, os turistas vão o lixo não!
E do impacto na Serra? Na fauna e flora? Esperemos que não surjam ideias de alargar estradas da Serra para facilitar o trânsito permitindo uma devassa maior do Parque Natural!
E Sintra não merece um pelouro somente dedicado ao Turismo?

Ou seja, de que forma está a ser planeado o futuro?

Resumindo, parecem existir dimensões desproporcionadas na relação da Vila de Sintra com o visitante, ou seja, existiram investimentos avultados que captaram maior interesse e portanto mais visitantes, no entanto não tem existido uma preocupação de harmonização das limitações inerentes à Vila com o elevado número de visitantes e o que isso implica para a comunidade local mas também para quem a visita.

Existe uma carência de infra estruturas modernas, nomeadamente casas de banho públicas, boas vias pedonais que potenciem a fruição de espaços públicos, transportes públicos mais eficazes e eficientes assim como paragens confortáveis, um mercado confortável e condigno que sirva de montra dos produtos regionais e devidamente integrado nos “roteiros” turísticos.
O Parque da Liberdade aguarda melhores dias, o Ringue de patinagem, esse, é uma cápsula onde o tempo parou.

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* Na zona do Saldanha em Lisboa as condições pedonais aumentaram drasticamente, desde passeios mais largos e desnivelados, envolvência com árvores e zonas verdes. Processo realizado em conjunto com associações cívicas.
**O restauro da estufa está concluído, e o resto?

*** Será que quem detêm a pasta do Turismo na Câmara Municipal de Sintra (CMS) nunca visitou mercados como o dos Lavradores na Madeira? Ou o de rua das Caldas da Rainha? Ou indo para referencias externas, La boqueria em Barcelona?

 

 

Nuno Agostinho

 

 

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