É tempo de o governo acordar

 

Tudo correu bem este ano ao governo de António Costa. Até agora. As contas em dia, um pequeno crescimento, alguma criação de emprego, até o Schauble está rendido: o governo arrasou onde a direita o desafiou. Não foi ousado, até foi ortodoxo, mas cumpriu as regras pelas quais o mediam na UE. A direita ficou constrangida, o diabo nunca mais aparece. Mas desengane-se quem afirmar que a escolha actual de Passos Coelho e de Assunção Cristas, de fugirem ao tema que os esmaga, a economia, é somente instinto de sobrevivência. É, mas é mais do que isso. Eles estão a tocar num ponto importante.

A ignição do inferno de Pedrógão Grande não é culpa do governo, assim como o assalto a Tancos não o é – na medida, e só na medida, em que possamos esquecer o tempo de inacção deste governo quanto à floresta ou mesmo quanto à segurança dos paióis, ou a forma como o anterior governo, sob a batuta de Passos e Cristas, cortou nesses investimentos, reduziu funcionários e afundou a soberania. Mas o governo Costa é quem está, e respondeu de forma desencontrada ao incêndio. Esse erro repetiu-se agora com Tancos.

O governo actuou rapidamente em Pedrógão para corrigir a flagrante impreparação e descoordenação da frente de combate nas horas iniciais. Foi na política que tropeçou: para comprometer Passos, aceitou a estranha comissão “técnica” nomeada pelo Parlamento, como se competisse a este órgão dirigir a investigação ou tivesse o necessário poder executivo para o fazer. Ou seja, Costa aceitou deixar passar o tempo, quando precisava de acção incisiva, e deixou que a manobra política fizesse a agenda, dando a entender que o governo descuida de saber já o que se passou – e portanto de corrigir as falhas. Foi um erro.

Pior do que um erro, só um segundo erro. Quanto se soube do assalto a Tancos, era preciso firmeza. E tivemos o contrário: o ministro foi à TV explicar três dias depois que não era o caso mais grave, que isto e aquilo. O roubo foi 4ªf passada e só nesta 2ªf o número dois do governo, Santos Silva, vem responder sobre o assunto e ainda de forma mais leve do que o caso exigia.

Entendamo-nos: o que o responsável máximo do governo devia ter feito logo era uma comunicação oficial explicando que há duas possibilidades que o governo tem de levar muito a sério – um roubo para os circuitos de venda de armas ou um roubo para as redes terroristas. Podendo além disso suspeitar-se de cumplicidade entre os militares, este é sempre um caso de Estado, é grave e exige todo o esforço de informação e de perseguição. O governante pode ser obrigado a cuidados especiais quanto ao que diz, para não prejudicar a investigação em curso, mas o que não pode é desvalorizar o assunto, ou deixar andar. Devia ter dirigido o debate sobre o assunto sem permitir qualquer dúvida. Tivesse-o feito e não havia espaço para jogo político; não o fazer é jogo político. Falar e actuar no tempo certo impediria a deriva demagógica e colocaria a questão onde tem de estar: entre o Estado e os bandidos. Isso tiraria do caminho o envergonhante jogo da direita mas, sobretudo, poria o governo no pé da sua responsabilidade.

Acontece ainda que há outro sinal preocupante. É Espanha. Portugal entrega aos seus parceiros militares a lista do material roubado, que é secreta, e vem publicada no dia seguinte no El Espanhol. Uma ministra portuguesa comenta o caso com o seu parceiro espanhol e uma versão da conversa vem escarrapachada no El Mundo, no dia seguinte. Uma vez é um deslize suspeito, duas vezes é uma operação. Como se viu no caso “Sebastião Pereira”, o Partido Popular espanhol está muito preocupado com o exemplo do governo português e desembainhou a intriga. Já agora, convém-nos saber o que fazem os vizinhos.

Senhor primeiro-ministro, é tempo de o governo acordar.

 

Francisco Louça » blog Público

http://blogues.publico.pt/tudomenoseconomia/2017/07/03/e-tempo-de-o-governo-acordar/

 

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O aproveitamento político

 

Esqueceram-se as falhas do SIRESP e da Protecção Civil, esqueceu-se o desaparecimento do Estado em Pedrógão durante quase uma tarde, esqueceu-se mesmo a tragédia de 64 mortos, porque o que é relevante é Passos Coelho ter afirmado, com base no testemunho do Provedor da Santa Casa da Misericórdia de Pedrógão Grande que alguém se teria suicidado por falta de apoio subsequente à tragédia. Testemunho logo assumido pelo próprio Provedor, com pedido de desculpas ao país e a Passos Coelho, por se revelar falso.

Não importam os mais de 60 portugueses queimados vivos, importa sim a utilização desenfreada e cobarde de uma afirmação que de imediato foi corrigida e, corrigida, logo divulgada ao país.

Ao fim e ao cabo, um país virado ao contrário. Políticos e comunicação social, em lamentável conluio, a aproveitar-se de  um incidente para tapar as responsabilidades por uma enorme tragédia.

Uma comunicação social que noticiou durante horas, sem qualquer confirmação, a queda de um avião que não se deu; e um 1º Ministro que se pôs acima e fora da tragédia, dizendo que não tem pontos de vista sobre a mesma!…

 

Pinho Cardão » blog Quarta República

http://quartarepublica.blogspot.pt/2017/06/o-aproveitamento-politico.html

 

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Assim se faz uma notícia simpática

 

Acordámos com uma notícia fofinha: as crianças vão ter mais meia hora diária  de recreio. Isto é o título. Lendo as notícias percebe-se que as crianças vão passar a ter menos meia hora diária de tempo lectivo. Note-se que são menos duas horas e meia de tempo lectivo no fim da semana o que já é significativo. Face ao espalhafato noticioso quase somos levados a acreditar que aquela meia hora foi acrescentada ao horário.

 

Mas a verdadeira notícia, a tal que havia que embrulhar num papel de lustro  é que enquanto as crianças pasam a ter menos meia hora de aulas por dia op professores passam a dar mais meia hora de aulas por dia. A quem? A ninguém: o recreio dos alunos passou a ser contabilizado como tempo lectivo para os professores.

 

Enquanto Pedrogão ardia o camarada Nogueira legislava na 5 de Outubro. E há mais. Tentem perceber o que vai acontecer no calendário escolar dos jardins de infância públicos no próximo ano.

 

Helena F. Matos » blog Blasfémias

https://blasfemias.net/

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Tu

 

O aceso debate de ontem, na SIC Notícias, entre João Galamba e Marco António Costa, foi um exemplo do grande fair play que existe no seio do Bloco Central. Na acesa troca de argumentos, cuja validade se estabelecia com clareza se fosse retirado o som ao televisor, lá surgia o fraterno tratamento por “tu”. “Ó Galamba, tu isto” e “Ó Marco, tu aquilo”, numa comovente partilha de fluídos dialécticos entre companheiros de ofício que deixam à porta da consciência aquilo que os divide, valorizando o que, afinal, mais conta: a Amizade em torno da mesa.

 

Não está perdido o mundo sempre que nele resista esta cumplicidade “tu cá tu lá” entre rivais de estúdio, adversários que sabem bem distinguir trabalho e conhaque. Até porque tudo é conhaque.

 

Bruno Santos » blog Aventar

https://aventar.eu/

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Dois pesos e duas medidas

 

Desde a desgraça de Pedrogão e, mais recentemente, com o assalto a Tancos, a oposição tem insistido no corte de cabeças.

Mais recentemente a presidente do CDS decidiu a cabeça de dois ministros. A comunicação social tem insistido nessa tecla. Na entrevista de hoje o secretário de Estado Pedro Nuno Santos, o actual director do jornal Público, insiste e insiste nesse ponto.

Ora, quando a gestão pública é mal feita, tudo deve ser invertido para que corra melhor. Neste caso, toda a gestão orçamental e política deveria ser avaliada e seguida pelos cidadãos, caso houvesse meios transparentes de o fazer. Mas não há. O mal não é deste governo: todos os governos usam uma margem de opacidade que impede o cidadão de ter os mesmos meios de prova de um governante. Vai-se sabendo, mas não se pode saber tudo ao mesmo tempo. Fica sempre a sensação de a informação ser um instrumento de arremesso, de haver manipulação de informação. Isso impede uma discussão mais aprofundada das questões, as quais tendem a redundar sobre que cabeças devem rolar.

E como também a comunicação social não tem essa informação, insiste apenas no mais fácil: a guilhotina.

Mas essa opacidade é a mesma quando se passa na gestão privada ou partidária. Com uma agravante: não há meios de princípio nem legais que obriguem um accionista ou um gestor privado ou um dirigente partidário a mostrar a informação/prova da sua má gestão.

Por exemplo, o CDS e Assunção Cristas que é presidente do partido desde 13/3/2016. O partido continua nos piores valores de sempre nas sondagens políticas. E não consegue absorver a queda a pique do PSD. Porquê? Não se deveria demitir a sua presidente? Não se deveriam divulgar as actas das suas reuniões para ver o que tem feito a presidente? Não, não devia, mas seria interessante.

 

Por exemplo, no caso do jornal Público, durante muitos anos os representantes dos trabalhadores exigiram informação para poder julgar a gestão do jornal e poder aferir da razoabilidade das afirmações de que não era possível actualizar os salários ou de que eram imprescindíveis despedimentos. E ainda hoje isso se passa, quando o jornal não consegue evitar a utilização da velha técnica de gestão para endireitar prejuízos: reduzir custos de trabalho, com despedimentos e afastamento de pessoas, para manter o mesmo nível de prejuízos do passado. E a culpa não é dos trabalhadores. Não deveria o seu director – em funções desde há um ano – demitir-se?

 

Um dirigente partidário ou um director de jornal deveriam ter mais cuidado ao julgar a gestão pública, quando não usam na sua pessoa os mesmos critérios de responsabilização que pretendem que o Estado use. Se não o fazem, arriscam-se a que pareça que tudo se trata apenas de uma jogada política. E isso irá, a prazo, jogar contra si.

 

João Ramos de Almeida » blog Ladrões de Bicicletas

http://ladroesdebicicletas.blogspot.pt/

 

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