Uma área que deve ser nobre, a transmissão de factos, eventos, situações, para que os “consumidores” as analisem e façam os seus próprios julgamentos com base nos melhores dados possíveis, credíveis e com os devidos contraditórios.

Foi por considerar de extrema importância o papel que a comunicação social tem na comunidade que o primeiro debate da (Re) Pensa Sintra em 2016 foi precisamente sobre este tema.

Assim, e após um debate bastante interessante (disponível aqui), redigimos um comunicado e deixo algumas notas do mesmo.

“ … a unanimidade dos três oradores convidados sobre vários assuntos: a proximidade com a comunidade, as dificuldades que o meio atravessa e o futuro da comunicação social.”

“… pressão económica ou política a que estes profissionais estão sujeitos, de facto todos assumem já ter sentido de uma forma ou outra essa pressão (recados informais, processos judiciais, blackouts, etc). No entanto, nunca de tal forma que os impedissem de publicar a noticia.”

“… como seria possível o governo local apoiar mais, por exemplo existindo um regulamento claro de publicação de editais pelos diversos meios de comunicação, através de um sistema de quotas que fosse isento, ou sensibilizando as empresas do concelho a usarem estes meios para a divulgação do seu negócio. As agências de comunicação contratadas pela CMS deveriam ser sensibilizadas para a publicação de conteúdos pagos, quando na realidade estas agências esperam que os conteúdos sejam publicados de forma gratuita, não partilhando o lucro.”

Promover a comunicação social local é também promover a identidade da zona, os seus valores; a sua cultura.”

Ora, de facto temos alguns meios de comunicação local ativos, e Sintra tem um grande historial jornalístico. (ver aqui)

No entanto, existe uma barreira entre a população e a comunicação social local, esta barreira é fruto também do “tipo” de concelho que temos, ou seja, incapaz de manter a sua identidade e valorizar a mesma.

Sintra teve um crescimento vertiginoso desde a década de 70, a (grande) transformação de um meio rural e de pouca densidade num concelho suburbano que serve “apenas” como dormitório.

Esta transformação criou uma perda de identidade, um afastamento dos valores de comunidade, basta referir que a maior parte desta nova população vem de fora do concelho não se enraizando, ora as consequências são claras e uma delas é a indiferença perante o local onde habitam (dormem) não o valorizando. É um problema típico de um bairro periférico de uma grande cidade.

Não me vou pronunciar sobre qualquer um dos meios de comunicação social que existem no concelho, julgo que qualquer pessoa que preste atenção a cada um deles consegue identificar as forças e fraquezas de cada um, se nunca fizeram o exercício, fica o desafio.

Vou referir outro aspeto, e isto remete para o inicio do meu texto quando mencionei “consumidor” e não “leitor / ouvinte / espectador” pois creio existir uma grande diferença.

Leitor é alguém que sabe interpretar uma noticia, sabe distinguir o que é noticia do que é propaganda, seja ela política ou comercial. Sabe a diferença entre noticia, crónica, comentário, reportagem, entrevista, de um conteúdo pago (sim, há conteúdos, como entrevistas, que são realizadas porque quem quer ser entrevistado paga para o ser)

Consumidor é o oposto, esta diferença é crucial para entender o conteúdo e a sua contextualização, portanto a realidade. Se a percepção da realidade é alterada a nossa opinião também.
Também deve ser claro (e na maior parte das vezes não o é) a diferença de um conteúdo pago de um conteúdo com verdadeiro interesse jornalístico, de interesse público e pertinente.

Igualmente importante, identificar fontes credíveis de informação, uma missão que se releva cada vez mais difícil, principalmente com a proliferação do fenómeno “on line” em que potencialmente cada cidadão é um “jornalista”.
Não esqueçamos a responsabilidade que a comunicação social tem na Democracia.

There’s only one bigger nuisance than the guy that wants to keep something out of the paper, and that’s the one that wants to get something in.”

Só há uma chatice maior do que alguém que quer manter uma coisa fora do jornal, e esse é o que quer lá meter alguma coisa

1910 Jornal de Reno, Nevada.

 

 

Nuno Agostinho

 

P.S. Numa nota final não posso deixar a oportunidade por relembrar que Sintra perdeu o que já era um marco internacional de uma das vertentes da comunicação social, o World Press Cartoon, este ano realizado nas Caldas da Rainha, terra de Bordalo Pinheiro.

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