Quem venha atrás…que feche a porta…

 

Por extrema caridade, ainda pensei que o famigerado Relatório da Dívida Pública das 15 versões diferentes fosse apenas uma forma tosca da arte de perder tempo. Mas não, aquilo é uma afirmação explícita da validade do aforismo quem venha atrás que feche a porta…

Como é sabido, um grupo de deputados do PS e do Bloco, e outro de catedráticos, doutorados, licenciados, superiormente coordenados por um membro do governo produziram um documento propondo medidas de reestruturação da dívida pública. Inútil, porque o governo já declarou que não o adopta, o próprio coordenador não se revê nele,  o representante do Bloco logo referiu que as propostas do Relatório não eram as do Bloco e o PS, apertado na geringonça, deu uma no cravo e outra na ferradura. O Presidente da República, na sua política de afectos, comentou que era um documento que merecia reflexão…

Seguindo o Presidente, reflecti e pergunto-me como é que tal conjunto dito de grandes economistas se prestou a deitar cá para fora um documento de tal teor. Para não falar noutras, as propostas de diminuição da maturidade da dívida e de privilégio das emissões de curto prazo ( e a crítica explícita ao IGPC), logo num momento de taxas baixas, constituem, só por si, demagogia de  bradar aos céus, por procurarem o desafogo no curto prazo, coincidente com as expectativas de governo da geringonça, mas colocando o país a correr riscos enormes de liquidez e de preço no futuro. Também a diminuição das provisões do BP se insere em em tal política de um miserável oportunismo. Para além das medidas erradas, de  uma assentada mais um golpe no BP e no IGCP e, assim, na credibilidade externa.

Nem vale a pena continuar. Aquilo não é um Relatório, nem uma forma tosca da arte de perder tempo. É, sim, uma afirmação explícita de que quem venha atrás que feche a porta…

 

Pinho Cardão  ##  blog Quarta República

http://quartarepublica.blogspot.pt/

 

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O Galambismo

 

Há uma nova corrente ideológica “made in” Portugal. Depois do comunismo, liberalismo, socialismo e outros tantos “ismos”, eis que neste nobre país de descobridores, inventou-se o Galambismo. O conceito é simples: defender qualquer coisa hoje (mesmo que indefensável) para contradizer amanhã se for necessário, consoante os ventos e as marés, usando todos os argumentos à mão por muito ridículos que sejam, fazendo-os parecer válidos e inteligentes, nem que seja à custa do insulto ou rebaixamento intelectual do opositor. Esta nova ideologia política, inspirada noutra já extinta, o Socratismo, despontou para servir a Geringonça na sua propaganda política. Serve essencialmente para propagar ideias feitas, por vezes sem nexo, para delas fazer umas “grandes verdades”  depois de repetidas até à exaustão. Confusos? Eu explico.

Num exemplo prático, é a mesma teoria de que se servem os nossos queridos adolescentes lá em casa quando, querendo fazer valer seus “direitos”, apanhados em falso a mentirem ou a fazerem asneiras,  argumentam tudo e mais alguma coisa para nos convencerem a mudar de ideias ou a justificarem o acto ilícito, usando explicações que vão da estória da Carochinha à do Robin dos Bosques, sem pestanejarem e convictos que estão a ter um discurso “mega” inteligente, válido e coerente. Estão a ver o filme? Quem é pai destes “piquenos” sabe do que falo.

O Galambismo é a consequência de vir directamente das universidades para o Parlamento sem passar pela dureza da vida activa, o que leva estes adultos a viverem num estado permanente “da adolescência”, protegidos pelo “lar” que os “acolheu”, sem nunca terem tido possibilidade de crescer em experiências profissionais  à custa da severidade do dia a dia dos comuns mortais.

Sem conhecimento de causa no terreno, os Galambistas, essas criaturas ainda na “puberdade profissional”,  conseguem defender, por exemplo,  que a sustentabilidade da dívida pública se resolve com o aumento dos dividendos pagos pelo Banco Portugal ao Estado. E dizem-no com o ar mais sério do mundo. Ora, sabendo que se o BP não constituísse mais provisões até 2023  o Estado arrecadaria 5,75 mil milhões de euros, estes  apenas dariam fôlego para 7 meses tendo em conta que em 2016 a dívida pública aumentou 9,5 mil milhões!!! E continua a aumentar… No fundo é o mesmo que pôr um penso rápido numa hemorragia arterial.

Se queremos recuperar a nossa soberania temos de seguir outros caminhos que ponham, em primeiro lugar o fim ao descontrolo  da dívida pública e consequentemente conseguir baixá-la com reformas estruturais corajosas. Estancar o mal definindo na nossa Constituição um tecto para o endividamento para que não haja possibilidade de derrapagens inesperadas futuras. Cumprir com as amortizações. E depois com um percurso  a não falhar com as nossas obrigações, não faltará espaço para negociações num futuro próximo com as instituições europeias no âmbito de uma possível reestruturação da dívida, devidamente apoiada pelos nossos credores.  Quem não se lembra das palavras de Schauble sussurradas a Gaspar onde lhe prometiam mais ajuda se fosse preciso? Porque sem a confiança de quem nos emprestou, confiança essa que só se consegue demonstrando vontade em honrar acordos (como foi o caso de Vítor Gaspar  e Maria Luis Albuquerque) jamais conseguiremos recuperar a soberania que perdemos por termos desfalcado as finanças do país. É preciso não esquecer que se estamos hoje  nas mãos dos credores foi porque levamos o país por 3 vezes a uma pré-falência. É obra! Só isto já nos coloca numa posição de desconfiança. Se juntarmos, “relatórios de sustentabilidade da treta”, numa altura em que se reverteu tudo e mais alguma coisa sem critérios nem almofada financeira, temos o cenário ideal para que todas as agências de rating e investidores sintonizem os radares na posição de “perigo à vista”.

O problema dos Galambistas é que, por muito que se explique isto, jamais entenderão devido à sua natureza de cigarras que planeia tudo para o curto prazo. Não conseguem ter uma atitude de poupança para prevenir futuras intempéries. Tudo é pensado ao momento e depois logo se vê. Acontece que ninguém sabe o que vai acontecer quando o BCE deixar de comprar dívida portuguesa e num futuro tão incerto, é importante o país ter uma boa almofada financeira. Já sabemos que cabe ao Estado português as decisões sobre as provisões mas cabe também ao Estado evitar tomar posições que não resolvem absolutamente nada em termos estruturais, só pontuais, recorrendo DE NOVO a medidas extraordinárias para resolver uma questão que não sabe ou não quer resolver: o aumento galopante da dívida pública portuguesa.

Ir às provisões do Banco de Portugal é fazer cosmética com poupanças do país.

 

Cristina Miranda  ## blog Blasfémias

https://blasfemias.net/

 

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70 mil milhões de migalhazinhas

 

O Relatório sobre a Sustentabilidades das Dívidas Externa e Pública, já aqui discutido por Ricardo Cabral, um dos autores, e por Bagão Félix, um dos signatários do Manifesto dos 74, tem três grandes novidades.

A primeira é que o PS e o BE, com alguns dos mais destacados economistas portugueses, apresentaram um conjunto de propostas concretas e bem estudadas. É importante e mostra que há caminho, se se trabalhar porfiadamente e com critérios rigorosos.

A segunda é que concluem que as imposições do Tratado Orçamental conduzem a uma política que “dificilmente é sustentável, económica, social e politicamente, a médio e longo prazo” (p.9), exigindo resultados que nunca algum outro país europeu conseguiu (p.62) e que “não é credível assumir” que sejam alcançados (p.63). Isso tem enormes consequências, ao afirmar-se que gigantes saldos primários exigem uma austeridade destruidora.

A terceira é que, pela primeira vez na sua história, o PS se compromete com uma proposta de reestruturação da dívida. Nunca o tinha feito. É uma viragem histórica assinalável: já não são pessoas individuais que subscrevem modelos de reestruturação, já não se fica por um mero pedido de solução europeia, o PS compromete-se aqui com um modelo concreto de uma reestruturação que implicaria um corte de mais de 70 mil milhões de euros na dívida directa do Estado, ou 39% do PIB.

Estes 70 mil milhões não são a proposta de sempre do PS (onde é que já tinham visto isto?) nem muito menos são “micro soluções”, ou uma “migalha” que “sempre é pão”, como ligeiramente disse um dirigente político (70 mil milhões é uma migalha no prato de quem?). É simplesmente a proposta mais forte que já foi feita sobre a reestruturação da dívida, pelo facto único de ter um compromisso maioritário como jamais alguma proposta tinha obtido – agora, o PS e o seu governo ficam comprometidos com uma negociação concreta que devem conduzir com as autoridades europeias.

Acho entusiasmante que os comentadores de direita desprezem a proposta, afirmando que só se trata de uma negociação europeia. Só? Dizem então que acham pouco. Pouco? Mais satisfeito fico por caírem na sua própria esparrela: precisamente por ser uma negociação europeia com objectivos quantificados, ficamos todos em condições de exigir conclusões dessas negociações. Se elas resultarem, temos um grande primeiro passo na reestruturação da dívida, os tais mais de 70 mil milhões. Se falharem ou inexistirem, alguma coisa se concluirá sobre o campo de possibilidades na União. A prova do pudim é comê-lo, diz um ditado inglês que talvez a direita ganhasse em ficar a conhecer.

Por outro lado, Passos Coelho faz um favor aos proponentes ao só bradar contra a melhoria dos dividendos a pagar pelo Banco de Portugal. Como ele bem sabe, está a tentar evitar uma decisão que o Banco já tomou, que aliás é natural: os resultados do Banco são lucros com a dívida pública, devolvê-los a Portugal é o que deve fazer. Como o Banco não tem riscos de crédito (não empresta a empresas e famílias), os seus futuros aumentos de capital devem ser moderados e não devem criar especulação contra a República. Mas Passos prefere correr em frente, como sempre, mesmo sabendo que perdeu neste terreno e que assim facilita a expressão da proposta de reestruturação: ele discute uns poucos milhões de provisões para ignorar muitos milhares de milhões de corte na dívida.

Quanto ao resto, a reestruturação da dívida é tão inevitável como a chegada do Verão: o FMI já não diz outra coisa no caso dos estados endividados, e em Portugal é moeda corrente (reestruturação da dívida dos bancos ao fundo de resolução; ou programas especiais como o PERES para reestruturar dívidas de empresas e pessoas). O que falta é mesmo que a União Europeia seja confrontada com uma posição consistente, com uma negociação séria e com quem seja capaz de tomar uma posição forte sobre os resultados do fracassou ou sucesso dessa negociação.

NB- Quando Teresa de Sousa e Marques Mendes resolveram espampanantemente acusar a esquerda de recusar uma pretensa homenagem a Mário Soares, sabem que é um truquezinho. A sessão do 25 de Abril no parlamento não era uma homenagem a Soares; essa homenagem solene já tivera lugar, com a participação de todos. Talvez Sousa e Mendes se lembrem mesmo que Soares, nas suas duas últimas décadas pelo menos, esteve certamente mais próximo dessa esquerda do que dos dois autores da intriguinha.

 

 

Francisco Louça  ##  blog Tudo menos economia

http://blogues.publico.pt/tudomenoseconomia/

 

 

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Um europeísta fanático, grosseiro e vesgo?

 

Uma forma de começar este post poderia ser “Vicente Jorge Silva (VJS) é um europeísta fanático, tão grosseiro e vesgo que não se importa de aceitar a eliminação acelerada dos direitos laborais e a destruição das bases em que assenta o modelo social europeu para garantir que a União Europeia jamais será posta em causa”.

 

Se o meu texto começasse assim, não estaria a fazer mais o que VJS faz no seu artigo de opinião no Público de hoje – a lançar um anátema injustificado sobre alguém de cujas posições discordo, para tentar descredibilizar a sua posição. A verdade é que não sei se a frase que escrevi entre aspas é verdadeira e desconfio que não seja. Mas sei que a forma como VJS descreve as posições do PCP e do BE sobre as eleições francesas e sobre o processo de integração europeia não passa de uma triste caricatura.

 

Há cerca de 20 anos que ensino, investigo e escrevo sobre o processo de integração europeia. Li grande parte do que se publicou em Portugal sobre o tema desde meados dos anos oitenta, incluindo as posições dos vários partidos políticos. Mesmo que nem sempre me tenha revisto em todas as posições sobre o assunto, tenho para mim claro que o PCP foi durante muitos anos o único partido político em Portugal que se dedicou a uma análise rigorosa e sistemática do processo de integração europeia – enquanto os restantes partidos aderiam a um europeísmo pueril, desprovido de fundamento técnico e essencialmente despreocupado com as implicações que o processo de integração europeia teria, para Portugal e não só. Quanto ao BE, classificá-lo de “anti-europeísmo primário” é ignorar que durante muitos anos este partido se demarcou dos comunistas precisamente com base no apoio à integração europeia. O distanciamento deste partido face à UE que realmente existe (por comparação com uma União por muitos idealizada) foi um parto difícil, exigindo aos bloquistas uma elaboração da análise sobre a integração económica – em particular, sobre a união monetária – que os partidos europeístas (nomeadamente, PS, PSD e CDS) dispensaram.

Não vou dizer de Vicente Jorge Silva que é um europeísta fanático, grosseiro e vesgo. Mas digo que a sua forma de discutir divergências é muito pouco salutar e demonstrativa de alguma preguiça mental da parte de alguém de quem se esperaria mais.

 

 

Ricardo Pais Mamede  ##  blog Ladrões de Bibicletas

http://ladroesdebicicletas.blogspot.pt/

 

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imagem  4.bp.blogspot.com

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