Cara por cara, não gostamos da sua

 

Estive a ver o debate quinzenal na Assembleia da República e fiquei com um sentimento de alguma perplexidade. Explico. Nas interpelações ao Governo, na pessoa de António Costa, as questões mais críticas e melhor articuladas sobre as políticas do governo vieram do PCP e do BE, que apoiam o governo, e não do PSD nem do CDS. Quer dizer, a oposição da direita é um flop, um bluff, não consegue dizer nada de substantivo que vá além do episódio de circunstância. Quais as razões?

António Costa é um hábil político. No que toca às questões de fundo, que derivam da condução das políticas económicas de acordo com as regras europeias quanto ao déficit, Costa assumiu a agenda da direita, quer ser cumpridor, e mostrar que o consegue ser com mais eficácia e melhores resultados. Até ao momento tem conseguido atingir tal objectivo. Logo, como pode a direita, neste tema, criticar o governo? Fica sem discurso e limita-se a trazer ao debate pormenores de somenos que não atrasam nem adiantam coisa alguma. E mesmo aí tem pouca ou nenhuma legitimidade para criticar as opções do governo que permitiram ao país atingir o déficit mais baixo de sempre, na medida em que, se as alternativas da direita fossem melhores, então teriam dado resultado durante os quatro anos que governaram o que na verdade não aconteceu. Assim sendo, o que lhes resta para criticar, já que não podem defender – apesar de ser o que pensam -, que repor salários e pensões tem sido uma política errada, sob pena de serem penalizados eleitoralmente mais do que o que já foram? Só lhes resta dizer que o déficit de 2% não foi de 2% ou que é sol de pouca dura, ou que foi conseguido à custa da redução do investimento público, ou que os serviços públicos estão depauperados, ou que o diabo ainda não veio, porque teve uma avaria na viatura demoníaca, mas que já chamou a OK TELESEGUROS e a Marta já providenciou uma viatura de substituição e chegará muito em breve.

Em suma, a direita não é capaz de fazer oposição eficaz a António Costa porque teria que fazer oposição a si própria, no que às políticas europeias concerne. Também não pode criticar a política de rendimentos frontalmente porque tal seria um suicídio eleitoral. Resta-lhes dizer que executariam melhor as mesmas políticas. Mas com o péssimo currículo que apresentam e que deriva dos quatro anos da sua malfadada governação, caem no ridículo e são facilmente alvo de chacota,  hoje já até para sectores tradicionalmente seus apoiantes, como franjas significativas do empresariado.

É por isso que as críticas mais contundentes, e de fundo, partem do BE e do PCP. Elas vão ao cerne do problema do país que é a dívida, a necessidade de a financiar a custos mais baixos, e simultaneamente crescer economicamente sem basear esse crescimento em salários mais baixos, maior exploração dos trabalhadores, tornando Portugal numa espécie de Singapura da Europa, como era o sonho de Passos Coelho.

António Costa nunca defendeu nem defenderá esse modelo de crescimento – e a esquerda sabe-o -, mas é um gradualista e um táctico. Um pequeno país não pode isolado pretender alterar as regras europeias na actual correlação de forças a nível político na Europa. Seria uma luta de David contra Golias votada a um mais que provável insucesso. Mas a esquerda também sabe isso mesmo, ainda que não possa, nem deva, abdicar do seu discurso próprio, nem que seja para manter viva a chama da sua militância.

É por isso que as críticas da esquerda ao governo, sendo as mais contundentes, não põem em causa a coesão parlamentar da Geringonça, para desespero da direita que tudo faz para enfatizar tais criticas, tentando desse modo criar brechas na muralha. Se o objectivo da esquerda é colocar no debate o problema da dívida e desafiar os ditames do Tratado Orçamental, retirar o apoio a este governo em nada contribuiria para esse desiderato. Apenas mudariam os rostos de quem iria cumprir essas mesmas regras mas dando ao mesmo tempo prevalência às políticas de ataque aos rendimentos do trabalho.

Ao menos com António Costa ainda a esquerda pode negociar e obter ganhos de causa, por limitados que possam ser.

O que Jerónimo e Catarina deveriam dizer a Passos, quando ele lhes aponta a contradição de criticarem um governo ao qual dão suporte seria só isto: políticas, políticas, caras à parte. E cara por cara não gostamos da sua.

 

Blog Estátua de Sal  ##  https://estatuadesal.com/2017/04/26/cara-por-cara-nao-gostamos-da-sua/

 

 #########################################################################

 

Júdice, mestre do insulogio

 

Existe desde há muitos meses um grande consenso no país: todos os portugueses concordam que António Costa é um verdadeiro político. A única divisão que se evidenciava até agora era entre aqueles que referiam este facto como forma de lhe dirigir um sincero e sentido elogio e aqueles que o sublinhavam como forma de lhe dirigir um sincero e sentido insulto. Na última semana, com a entrevista concedida ao diário i por José Miguel Júdice, passou a existir uma terceira categoria de cidadãos: os que consideram António Costa um verdadeiro político, mas o exprimem de uma maneira tal, que louvor e ofensa se misturam num género ainda não estudado pelos linguistas.

Nessa conversa jornalística, o ex-Bastonário da Ordem dos Advogados começa por atribuir ao Primeiro-Ministro o título de político mais dotado da sua geração; algumas linhas depois, quando o leitor ainda está a digerir a apologia, aproveita para realçar que é impossível fazer política sem se estar permanentemente a mentir. E é precisamente por isso que o advogado considera o secretário-geral do PS um génio, um autêntico Fernando da Pessoa da aldrabice / que chega a achar que é verdade / a mentira que sabe que disse.

Recorrendo ao Google, descobri que já há uns tempos, numa outra entrevista, Júdice tinha destacado a frieza e a falta de emoções de António Costa, assegurando que a sua maior qualidade era ser “um verdadeiro oportunista”. Desde o dia em que um amigo meu, fervoroso adepto do FCP, confessou apreciar as minhas qualidades futebolísticas e estilo de jogo ao ponto de sonhar todas as noites com a minha contratação pelo Benfica ou pelo Sporting, que não tinha o prazer de contactar com tão venenosos elogios.

Mas Júdice não se fica por António Costa e lança também a sua análise sobre o Chefe de Estado: o seu amigo Marcelo é igualmente o político mais dotado da sua geração (ficamos sem saber quantos anos dura cada geração de políticos, mas, aparentemente, são poucos), embora sofra de verborreia e de entusiasmo excessivo, e seja manipulador, maquiavélico, ácido, sibilino, capaz de jogar com as pessoas, maledicente e traiçoeiro! É impossível não ficar assustado só de pensar nos elogios que o advogado utilizaria para caracterizar o político menos dotado da geração do Presidente da República.

Nestas entrevistas, são também reservadas algumas palavras a Passos Coelho: é descrito como um homem menos adequado ao momento que Portugal atravessa, e com uma menor habilidade para lidar com as subtilezas, complicações e especificidades da vida política nacional. Ambrose Bierce disse uma vez que um elogio é um empréstimo que rende juros. Intenções de José Miguel Júdice à parte, se fosse a Passos Coelho, começava a poupar para os pagar.

 

Sérgio Barreto Costa  ## blog Blasfémias

https://blasfemias.net/


########################################################################

 

A falta que fazem os amigos

 

“A sugestão dos candidatos é uma competência conjunta do Banco de Portugal e do Tribunal de Contas, mas a nomeação formal depende sempre do Governo.”, diz o jornalista amigo, sedeado, neste caso, no Observador.

“1 — Os membros do conselho superior são nomeados pelo Conselho de Ministros, sob proposta conjunta do Presidente do Tribunal de Contas e do Governador do Banco de Portugal.”, dizem os estatutos.

“8. Visa-se promover a independência pessoal da seguinte forma: – a nomeação dos membros do órgão máximo do Conselho das Finanças Públicas (que é o Conselho Superior) é efectuada, conjuntamente, por duas entidades politicamente independentes, o Banco de Portugal e o Tribunal de Contas (art.º 13º);”, diz a introdução da proposta de estatutos apresentada pelo grupo de trabalho  encarregado dessa tarefa.

A minha dúvida é se o jornalista não faz ideia da utilidade de um sistema de pesos e contra-pesos numa democracia madura, ou se simplesmente fica satisfeito com justificações como esta:

“Segundo o Expresso, o nome da economista italiana não levantava qualquer objeção significativa entre os membros do Governo socialista, mas acabou por ter o mesmo destino de Luís Vitório.”

Pela parte que me toca, eu teria vergonha de ser jornalista e escrever uma peça como esta sobre uma questão central: a independência das entidades de escrutínio das políticas públicas (não falando já da ligeireza com o que o Observador, não só este jornalista, mas também este jornalista, aceitam que o Primeiro Ministro se recuse a apresentar o fundamento das suas decisões ao parlamento, como se isso fosse uma questão menor para aferir a qualidade do sistema democrático que temos).

Quando vos disserem que a responsabilidade da abstenção e do crescimento do sentido de inutilidade da intervenção política é da responsabilidade dos partidos, digam que sim, que é verdade, que em parte isso é verdade, mas seria bom não esquecer a responsabilidade dos jornalistas na situação, bem ilustrada por este caso em que uma garantia de independência é transformada, pelo jornalista, numa mera sugestão.

ADENDA: parece que no Observador há quem entenda o essencial do que está em causa.

 

Henrique Pereira dos Santos  ##  blog Corta-Fitas

http://corta-fitas.blogs.sapo.pt/

 

################################################################

imagem,  fa40anys.blogspot.com.es

 

Anúncios