As sociedades industrializadas contemporâneas, apesar das suas diferenças, têm vindo a moldar uma estrutura social em que a despersonalização e alienação das cidadãs e dos cidadãos se repercutem negativamente na sua capacidade criadora.

O incentivo à participação foi substituído pelo “convite” à passividade contemplativa de um crescente número de espectáculos e produtos, simpaticamente designados, na sua maioria, de “eventos”.

Acontece que a sua multiplicação, por maior que seja, não transforma o espectador em actor, como nos recordava há mais de trinta anos Raoul Vaneigem, sendo esta passividade, afinal, um dos elementos significativos deste processo de transformação dos cidadãos em meros consumidores, espectadores, contribuintes e adeptos.

Este fenómeno de afastamento da participação cívica nas nossas comunidades tem raízes sócio-políticas conhecidas, e as suas consequências estão à vista. A uma menor participação cívica corresponde uma menor exigência colectiva, o que favorece o surgimento na esfera pública de todo o tipo de flibusteiros.

A dimensão cultural, por si só, não é suficiente para alterar o actual estado de coisas, mas encerra potencialidades para o contrariar. É aqui que a responsabilidade dos municípios e o de Sintra em particular é incontornável.

Favorecida pela escala da sua jurisdição, conhecedora das dinâmicas que nela se manifestam, detém a Câmara Municipal de Sintra (CMS) os instrumentos materiais e financeiros indispensáveis para desenvolver uma política sustentada de sensibilização à participação nas múltiplas expressões que as actividades culturais encerram.

A prioridade estratégica da CMS deveria, por exemplo, incidir na formação de animadores e mediadores culturais, na valorização dos repertórios culturais das migrações e envolvimento da comunidade escolar de forma sistemática no contacto com as várias experiências artísticas (em substituição da tradicional “visita de estudo”).

O resultado deste trabalho, complementar às actividades dos diversos grupos e associações já apoiadas, deveria culminar, todos os anos, num momento de grande divulgação/participação, que poderíamos designar Forum da Criação Cultural do Concelho de Sintra.

O contributo da CMS para a formação de actores sociais culturais seria um excelente serviço público prestado à comunidade.

A designada cultura de massas, no fundo é a cultura dominante difundida nas massas. Produzida segundo as normas da fabricação industrial maciça, submetida à lei do mercado, vende aquilo que se consome, cria falsas necessidades, fabrica estrelas e vedetas à velocidade da luz e, sobretudo, cria modelos de conduta onde a exaltação do individualismo se apresenta como um valor universal.

A palavra à CMS, …… mesmo em fim de mandato.

 

Valdemar Reis

 

 

 

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