É costume ouvir dos membros do executivo autárquico que fazem uma politica para as pessoas, que trabalham com o foco nas pessoas. Aqui por Sintra, quer por parte do Executivo Municipal quer por parte dos executivos de algumas Juntas de Freguesia, essa frase é frequente e acompanhada por uma afirmação algo imperativa indicando que aquele é o caminho. É minha opinião que esta é a mais errada forma de estar e de fazer politica autárquica. Deve sim trabalhar-se com as pessoas, conhecer a sua realidade e não indicar caminhos, mas sim percorrer os caminhos ao lado de quem, ativamente, exerce a sua cidadania a nível social, desportivo, associativo ou cultural. Porque não há um só caminho. Há sim vários percursos que poderão se entrecruzar entre eles e daí resultarem novas dinâmicas e novos trajetos a seguir.

Em Sintra, atualmente, mais do que procurar uma articulação entre todos os que, individual ou coletivamente, desenvolvem atividades relevantes de valorização na comunidade, existe uma tendência seletiva de apoios e de intervenção por parte de diversos executivos municipais. São múltiplos os exemplos onde se percebe que a valorização do trabalho desenvolvido assenta mais na politica e menos na real importância ou relevância dos projetos, das iniciativas, das pessoas e das associações.

Há muito que defendo que no palco social, cultural, desportivo ou associativo, os atores têm que procurar interações e sinergias com os mais diversos parceiros destas e de outras áreas de forma criativa, com dinamismo, objetivando o enriquecimento das iniciativas e uma maior autonomia e sustentabilidade para que possam, de forma crescente, desenvolver mais e melhor atividade. É neste pressuposto que entram as autarquias, município e freguesias, como principais catalisadores dessas ligações ou sugerindo, elas próprias, novos projetos conjuntos envolvendo-se e trabalhando ao lado de quem, no terreno, procura dar mais à sociedade, à comunidade. É necessário fazer “COM” e não “PARA”, em especial quando, como presentemente, os autarcas não têm um conhecimento profundo da realidade, das forças e das oportunidades que cada entidade tem e assumem posturas autocráticas e, diria, quase que omniscientes detentores da razão

Por vezes, o melhor apoio não é o financeiro e a Câmara Municipal e as Juntas de Freguesia não podem agir como meros patrocinadores. Têm que ser parte integrante da comunidade e ser agentes simplificadores e dinamizadores de apoio a todas as ações que, de forma continuada e sustentada, desempenhem um papel relevante junto da população. Não há que indicar um caminho. Há que conhecer profundamente os trajetos que se deparam a cada um, sugerir, acompanhar e orientar de forma próxima e sustentada, criando condições para que cada um consiga alcançar os objetivos e valorizar ainda mais o papel que desenvolvem.

Uma autarquia não pode afirmar que “este é o caminho!” Uma autarquia tem que ser multifacetada, um todo o terreno, que percorra ao lado dos cidadãos, das associações, dos clubes, das instituições, os caminhos que cada qual enfrenta, partilhando das dificuldades, potenciais e identidade de cada um. Uma autarquia tem que estar “COM” todos e não apenas “PARA” alguns.

 

 

Carlos Miguel Saldanha

 

 

 

 

 

Anúncios