É um projecto que se arrasta desde finais dos anos 90 do século passado, que emerge e submerge, mas, garante quem sabe, não está encerrado. Pode, a concretizar-se, ser mais uma prova da resistência ao trabalho planificado pela maior parte das autarquias e ainda da sofreguidão pelo efeito do imediato, em detrimento do futuro. Duma pretensa modernidade bacoca, que acirra a acefalia do consumismo desenfreado, que não tem em consideração o desenvolvimento sustentado das regiões, e onde quem ganha são os grandes interesses económicos, geralmente em desfavor da qualidade de vida das populações.

Segundo o jornal “Público” de 7 de Janeiro de 2015, escrito pelo jornalista (digno do nome) José António Cerejo, “(…) aos actuais Fórum Sintra, Sintra Retail Park, Leroy Merlin, Staples e Decathlon, e ao já aprovado Jumbo, todos eles no termo do IC19, entre Rio de Mouro e Ranholas, deverá juntar-se um novo centro comercial da Sonae (grupo proprietário do PÚBLICO). O estabelecimento, que terá uma área de construção próxima dos 35 mil m2, perto do dobro da do futuro Jumbo, funcionará como a âncora de um território de mais de 70 hectares, a que Basílio Horta, o autarca de Sintra, tem chamado Cidade Sonae”. De então para cá, o Jumbo já foi construído, e o Plano de Pormenor da Abrunheira Norte está em banho maria, graças à forte oposição e resistência da população**. Por outro lado, a bizarra ideia de uma Sintra dos Pequeninos não passou(?) da bizarria*, e a então Directora Municipal de Planeamento, Ana Queiroz do Vale, ao que consta com as orelhas a arder***, ficou sem o Planeamento e trata agora só do PDM. Do auto anunciado candidato do PS às próximas eleições autárquicas, nunca mais se ouviu uma palavra sobre a Cidade Sonae. Mais uma derrota? Se foi assim, ainda bem, pelo futuro de Sintra e da qualidade de vida dos sintrenses que em Sintra continuarão depois de acabada a comissão de serviço de Basílio Horta.

Os contornos, conhecidos, da crismada “cidade Sonae”, são um exemplo eloquente do que não se deve fazer na gestão de um território que é habitado por pessoas, pormenor que o PS/Basílio Horta tem tendência a esquecer. Desde logo porque desafia qualquer planificação das linhas estratégicas do território, assim como, no caso especial de Sintra, a harmonização e a defesa do Património natural e edificado, com novas necessidades construtivas. Isso se vê, caso seja aprovado o projecto, na referida proximidade da zona tampão à Serra, e ainda na concentração, numa área geográfica relativamente reduzida, de quase todas as marcas de grandes superfícies comercias na versão hipermercado. A agravar a situação e a incapacidade(?) deste, e na verdade se diga, de outros Executivos, está a questão da acessibilidade e mobilidade, que é (sempre) colocada ao contrário. Primeiro constrói-se, depois logo se vê como se resolve o problema viário, sendo que neste caso, a sobrecarga vai para o já entupido IC19.

Que “moderação e negociação”, se esconderão sob nomes pomposos, como este da “cidade Sonae”, que levou o recandidato do PS às próximas autárquicas, a declarar:” “Não podemos querer a cidade sem a parte comercial. Não pode ser porque é a Sonae que vai fazer o investimento directo e fomentar o resto. Temos de moderar, negociar, mas na minha opinião devemos ter aquela cidade, que muda muito a freguesia e é importante em termos de receitas”. Para acumular os parados milhões que estão depositados nos bancos?**** Que “moderação e negociação” é esta, que não tem em conta o concelho como um todo sinergético e parece ir a reboque dos interesses dos grandes grupos financeiros – este projecto, sem o ridículo Parque Temático, da Sintra dos Pequeninos, não podia ser uma boa alavanca de desenvolvimento da zona norte do concelho, servindo de ligação, harmoniosa, entre o rural e o urbano e com duas AUGI`s para resolver, nas Uniões de Freguesias de Almargem do Bispo, Pero Pinheiro e Montelavar e também na de S. João das Lampas e Terrugem?

 

 

João de Mello Alvim  »«  blog Três Parágrafos, 19 Março, 2017

https://wordpress.com/posts/tresparagrafossegundaedicao.wordpress.com

 

 

*Num post publicado no Facebook, escreveu João de Oliveira Cachado: “Para anedota mais acabada que já vi figurar num projecto, lembro-lhe o da Cidade Sonae, que pressupunha a concretização de um parque temático com uma designação qualquer parecida com ‘Sintra dos Pequenitos’ (provavelmente, inspirada no ‘Portugal dos Pequenitos’ que a Fundação Bissaya Barreto implantou em Coimbra noutras eras e que, ainda hoje, tanto sucesso tem). O objectivo, pasme-se, era levar as pessoas a um recinto onde, em réplicas-miniatura, principalmente as crianças, poderiam «visitar» os monumentos que, bem reais, estavam a mais ou menos algumas centenas de metros… E o projecto chegou a ser defendido pelo Dr. Basílio Horta, pelo seu executivo e técnicos municipais”.

** https://www.change.org/p/sr-presidente-da-c%C3%A2mara-municipal-de-sintra-exigimos-que-n%C3%A3o-seja-permitida-a-constru%C3%A7%C3%A3o-da-cidade-da-sonae-em-sintra

***Não seria de admirar se tal fosse verdade. Teria ficado entalada entre as directivas do Presidente da Câmara, e o presidente da concelhia, e vereador do Desporto, Juventude e Turismo, que sempre resistiu a esta acumulação de funções, provavelmente por ter outros nomes para o lugar.

****Segundo comunicado da oposição, Movimento Sintrenses com Marco Almeida, de 30 de Março último, e ainda não desmentido pelo Executivo PS/Basílio Horta, o “saldo de gerência em 2016 (…) quase chega aos 75 Milhões€ o investimento quedou-se pelos 9 Milhões”. É obra!

 

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