A decisão de cortar 1400 árvores no Parque Natural Sintra-Cascais gerou polémica e é um barómetro para analisar a relação dos poderes públicos com o cidadão. Da parte do poder político, nomeadamente da Câmara de Sintra, é o silêncio que tem falado mais alto. Basílio Horta, que tinha surgido de véspera nas televisões a plantar uma árvore com o Primeiro-Ministro, não diz uma palavra sobre o caso.

Da parte da entidade responsável, o ICNF, surgiu primeiro uma decisão sem diálogo e só depois da contestação veio o palavreado técnico em sua defesa. Outra voz, contudo, interferiu com esta: uma “fonte anónima” dentro do ICFN desmente na imprensa os critérios apresentados: “as árvores não se encontram em fim de vida, nem em mau estado fitossanitário, nem em concorrência direta com as espécies autóctones, que escasseiam nas áreas a intervir”. E a autoridade da voz técnica foi minada por contradições: a intervenção é caracterizada como “cirúrgica” mas extensa, como sendo direcionada para a segurança rodoviária mas abrangendo muitas árvores fora deste critério, esta preocupação é imperativa mas para à porta dos privados, ora se alega a concorrência com as espécies autóctones ora se diz que nenhuma árvore foi marcada para corte por ser exótica e os eucaliptos da área não estão marcados para abate.

Uma coisa é certa: a pressão já levou a que se tenha passado do categórico “o auto de marca é para abate” para o plano hipotético em que a marcação precisa ainda de uma retificação posterior e até se aceitam sugestões. Resta saber se o diálogo veio para ficar ou se é um argumento circunstancial para calar descontentes. E resta saber anda o que vai ser feito para além deste diálogo para colmatar uma realidade que se apresento*

a como consensual: a de que existe um desinvestimento no património natural do Parque que o coloca em perigo.

 

Carlos Carujo

 

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