Sócrates era, afinal, o dono disto tudo

 

 

O prolongamento do inquérito da Operação Marquês  provocou, como era de esperar, uma enorme discussão nos meios de comunicação social e nas redes sociais. Uma das mais interessantes ocorreu na SIC-Notícias, sexta-feira à noite, no programa Expresso da Meia Noite. Digo interessante porque um dos participantes, o advogado João Nabais, criticou as  revelações da jornalista da SIC, Sara Antunes de Oliveira, que também participava no debate, por conhecer o interrogatório do arguido Helder Bataglia, que segundo a jornalista justifica as últimas diligências do Ministério Público e as novas acusações a Sócrates. Sara mostrou-se bem informada sobre o processo, a ponto de explicar que no caso da OPA da Sonae à PT o importante são “os bastidores das decisões” (que pelos vistos ela conhece) e não a “aritmética das votações na assembleia geral da PT”.

Outro dos participantes no debate, Micael Pereira, jornalista do Expresso, mostrou-se mais discreto na exibição dos seus conhecimentos sobre o processo, mas, ainda assim, não escondeu que conhece bem a estratégia e os pontos de vista do Ministério Público.

João Nabais bem se esforçou na defesa do que ele chamou princípios de um Estado de direito, respeito pelos prazos do inquérito e direitos dos arguidos e na crítica à condução do processo pelo Ministério Público.  Mas o seu papel era difícil porque os seus interlocutores, incluindo a ex-jornalista, agora advogada, Inês Serra Lopes, dispõem de informação privilegiada e mostraram-se seguros e convictos das razões do Ministério Público, cujos pontos de vista adoptaram. Sócrates e os seus advogados bem podem clamar pelos seus direitos que essa é matéria que só interessa aos líricos ou aos “socráticos”.

Perante as certezas sobre a culpabilidade de Sócrates e a imensidão de crimes de que é já praticamente acusado, admira que não estejam já a ser investigados todos os membros dos seus dois governos, bem como os seus amigos e todos aqueles que alguma vez foram apanhados a falar com ele, pessoalmente e ao telefone. É que é impossível que sejam só  pouco mais de vinte as pessoas, algumas das quais completamente desconhecidas e fora das esferas do poder, que ajudaram Sócrates a obter os milhões que o Ministério Público contabilizou como sendo dele.

Como é que um primeiro-minstro conseguiu fazer tantas falcatruas sem que ninguém no governo desse por isso? Se até o Presidente Cavaco vem dizer que “nunca detectou nenhum comportamento de Sócrates que violasse as normas”… Andavam todos a dormir ou foram todos coniventes?

Há nisto tudo alguma coisa que não bate certo. Sócrates, sozinho, a manobrar  no governo para beneficiar o Salgado e o BES , o Zeinal e o Granadeiro, e a receber dinheiro de todos os lados? E não há um recibo, um papelinho, uma caderneta, um despacho, qualquer coisa que o faça calar  a dizer que não há provas? E se há porque é que ainda não saíu ao menos uma  nos jornais amigos dos procuradores?

Uma coisa parece certa: pelo que vamos lendo e ouvindo, Sócrates era afinal o dono disto tudo. Não Ricardo Salgado, como tem sido dito. O Ministério Público tem razão, a procissão ainda vai no adro e o processo ainda agora começou. Há, pois, que continuar as  buscas porque as provas hão-de aparecer!

 

Estrela Serrano  »«  blog  Vai e Vem,  18 Março, 2017

https://vaievem.wordpress.com/

 

 

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Dijsselbloem, o Presidente do Eurogrupo que não convém à Ibéria

 

 

O presidente do Eurogrupo, no Verão do ano passado, foi um defensor de que Portugal e Espanha deviam ser multados no âmbito do Procedimento por Défices Excessivos referente ao défice de 2015 (ultrapassado por causa da Resolução ao Banif no fim do ano). A Comissão Europeia na altura optou por suspender a multa aos dois países, mas contra a vontade do ministro holandês.

“É dececionante que não haja seguimento da conclusão de que Espanha e Portugal não tomaram ações eficazes para consolidar os seus orçamentos”, referia na altura, Jeroen Dijsselbloem, que deixou sempre claro que, “apesar de todos os esforços realizados, Espanha e Portugal ainda estão em perigo”.

Como se sabe o mandato do presidente do Eurogrupo acaba em janeiro de 2018, e Luís Guindos (espanhol) está a tentar ser o sucessor.

Isto porque Dijsselbloem (socialista) não vai ser reconduzido como ministro das Finanças no seu país, dada a derrota histórica do seu partido (PvdA) nas eleições da passada quarta-feira.

Ora para Portugal há nova ameaça de sanções desta vez por desequilíbrios macroeconómicos excessivos.

Serve isto tudo para contextualizar a reação à entrevista do presidente do Eurogrupo que usou uma metáfora (que se pode apelidar de infeliz), mas que foi convertida pela imprensa numa acusação.

 

O que disse Dijsselbloem?

 

“Tornamo-nos previsíveis quando nos comportamos de forma consequente e o pacto no seio da zona euro baseia-se em confiança. Na crise do euro, os países do norte da zona euro mostraram-se solidários para com os países em crise. Como social-democrata, considero a solidariedade da maior importância. Porém, quem a exige também tem obrigações. Eu não posso gastar o meu dinheiro todo em aguardente e mulheres e pedir-lhe de seguida a sua ajuda. Este princípio é válido a nível pessoal, local, nacional e até a nível europeu”, respondeu Jeroen Dijsselbloem quando o jornalista do “Frankfurter Allgemeine Zeitung” (FAZ) o confrontava com o entendimento do ministro alemão das Finanças, Wolfgang Schäuble, relativamente ao rigor com que a Comissão Europeia e a UE em geral devem observar as regras em vigor (tradução do Expresso).

O mundo mudou as palavras do holandês e transformou a metáfora numa acusação aos países da Europa do Sul de que gastavam tudo em mulheres e alcool e depois iam pedir ajuda.

Esta interpretação motivou uma reação (exagerada e grotesca) do primeiro-ministro português que rapidamente insultou o ministro holandês (sem qualquer metáfora) dizendo:

Dijsselbloem “tem uma visão xenófoba, racista e sexista” sobre parte da Europa e “numa Europa a sério, o senhor Dijsselbloem a esta hora já estava demitido”.

Claro que a fúria de Costa não colheu (a sua maior frustração é não mandar nas instituições da Europa, mas não manda e como tal não correram com o Dijsselbloem).

Os espanhóis, mais interessados no lugar de Dijsselbloem foram mais “polite” e pedem apenas que se retrate publicamente do que disse.

Reparem em como é tratado o assunto num jornal espanol (El País):

El ministro español Luis de Guindos, que peleó por el puesto de jefe del Eurogrupo hace dos años y sigue con esa idea rondando su cabeza —pese a que en público se descarta—, ha vuelto a tachar de “desafortunadas” esas declaraciones y ha insistido en que Dijsselbloem debería arrepentirse. “Las declaraciones me parecen desafortunadas desde el punto de vista de la forma y del fondo” , ha expresado en los pasillos del Congreso.

Como vêem os insultos e pedidos de demissão agressivos só mesmo de Portugal e de Itália (que também está lá com um problemazito com os bancos).

 

Maria Teixeira Alves  »«  blog Corta-Fitas, 22 Março, 2017

http://corta-fitas.blogs.sapo.pt/

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