Ainda a propósito da Câmara Corporativa, bloggers anónimos e posts comprados

 

Acho a coisa divertida. Faz lembrar a belíssima “conspiração da blogosfera” para levar Passos Coelho ao poder. E todos sabemos que foram os blogs e as suas enormes audiências que deram a vitória a Passos Coelho. Mas pronto.

Um blog é um media. Não é um órgão de comunicação social. Um blogger não é um jornalista. Um blogger é um ativista, publicitário, cronista, treinador de bancada. É aquilo que quiser. Como quiser. Mesmo anónimo. Mesmo comercial. Ou nada disso. Essa é a parte engraçada da coisa. Pessoalmente sempre olhei para as redes sociais como um magnífico instrumento de entretenimento. E às vezes de ativismo.

Partilhavam-se argumentos e documentos entre bloggers do mesmo partido? Ainda bem. Miguel Abrantes preferia assinar como Miguel Abrantes? Problema dele. Era remunerado pelo que fazia? Que inveja. A minha. Sócrates tinha de pagar para garantir elogios? Que azar. O dele.

Um advogado não é pago para falar em nome do seu cliente? Não pode um blogger fazer a mesma coisa? Não há dezenas de atletas, manequins e figuras públicas que advogam dezenas de diferentes marcas? Não podem os bloggers fazer a mesma coisa?

Claro que podem. Liberdade também é assinar com um pseudónimo ou escolher ganhar a vida advogando outros. Não julgo. Posso é escolher não ler.

 

 

Rodrigo Moita de Deus  »«  blog 31 da armada

http://31daarmada.blogs.sapo.pt/

 

 

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Sampaio esteve mal

 

Este início de 2017 tem sido fértil na publicação de “obras literárias” escritas por ex-Presidentes da República. E digo escritas, porque no caso do segundo volume da biografia de Jorge Sampaio, sendo a obra assinada pelo jornalista José Pedro Castanheira, o que lá está escrito, é aquilo que o ex-Presidente Socialista pretende dar a conhecer, e não o que o autor entende colocar. Esta obra parece ser mais uma tentativa de expiação de alguns pecados, em especial algumas decisões desastradas de Jorge Sampaio. Enganam-se, Cavaco e Sampaio, se pensam que nós mudamos a nossa opinião sobre aquilo que foi o seu legado na História de Portugal. O que está feito, feito está. Bem ou mal!

Porque fica Jorge Sampaio mal nalgumas das afirmações feitas neste livro, em especial as que envolvem Pedro Santana Lopes?

Jorge Sampaio sabe muito bem que os portugueses nunca lhe perdoarão ter aceitado dar posse a um governo liderado por Pedro Santana Lopes. A imagem que os portugueses tinham do actual provedor da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa era a de uma pessoa pouco idónea e responsável. Sabendo isso, Sampaio sente-o ainda hoje, ele tenta justificar-se de forma pouco hábil, e acima de tudo sem argumentos razoáveis para a tomada dessa decisão. Até porque insiste que a tomaria de novo. Cavaco Silva não faria por menos. Esta gente nunca se engana e raramente têm dúvidas. Contrariamente, Soares dizia que só os burros é que não mudavam.

Toda a gente que não vive obcecada com o cartão partidário, e gosta de olhar com alguma distância para estes eventos, sabe que na altura em que Durão Barroso colocou a questão da sua saída para a Presidência da Comissão Europeia a Jorge Sampaio, a este só lhe restava uma de duas hipóteses. Convocar novas eleições legislativas, caso Durão Barroso insistisse em ir para Bruxelas, ou evitava novas eleições tão cedo, salvaguardando alguns consensos partidários, por exemplo, dando posse a um novo governo da coligação de direita, presidido por Manuela Ferreira Leite, então Ministra das Finanças do governo ainda em funções. Tudo o resto são divagações em torno de uma realidade que correu muito mal para Portugal. Também pagamos hoje a factura dessa decisão, e Sampaio sabe-o tão bem quanto eu.

Pedro Santana Lopes era na altura vice-presidente do PSD. Mas era também Presidente da Autarquia Lisboeta. Ora, dar posse a um chefe de governo que nem eleito para a Assembleia da República tinha sido, é obra. É por isso que eu hoje acho piada aos argumentos da direita sobre a Geringonça, apenas pelo facto de António Costa, eleito deputado pelo Partido Socialista, ser líder de um governo minoritário, mas com apoio maioritário no parlamento, eles, direita, que se ficaram pelos 38% dos votos, quando no passado tivemos um primeiro-ministro que nem sequer foi eleito para a Assembleia da República.

Jorge Sampaio optou pela segunda hipótese, que é legitima e constitucional, dar posse a Santana Lopes. Mas não o fez por razões de Estado. Essa eu não engulo. Fê-lo apenas e só por questões de agenda politica.

O PS à época vinha de sarar algumas feridas no Processo Casa Pia, onde alguns dirigentes se tinham visto envolvidos. É bom não esquecer isto. Mesmo que depois, muitas dessas suspeitas não se provassem. E ainda bem. Mas, na altura o mal estar era bem visível dentro do PS e em torno do partido. Logo, os socialistas não estavam ainda em condições de alcançar uma maioria parlamentar estável, duradoura, apesar do desgaste do governo de Durão Barroso. Para Sampaio era pois necessário ganhar tempo, mesmo que com o sacrifício do país, com um governo liderado por Santana Lopes. Aliás, este era o elemento perfeito para levar o PS ao poder no curto médio prazo. O importante era escolher o timing certo, quando a popularidade do executivo estivesse nos mínimos, para dissolver a AR.

Entretanto, a direita dividia-se entre os pragmáticos e os aficionados da clubite. E é aqui que entram as críticas de Manuela Ferreira Leite, Pacheco Pereira, entre outros, e acima de tudo Cavaco Silva, com a história da boa e má moeda, relativamente ao executivo e à liderança de Santana Lopes. Cavaco queria ser Presidente da República e afastar-se do contágio de Santana Lopes. É óbvio que Cavaco nunca imaginou que depois do que disse aos jornais e a Jorge Sampaio numa célebre reunião entre os dois, que viria aí uma maioria absoluta do PS, com Sócrates a primeiro-ministro. Mas estava dito e escrito, e nada havia a fazer.

Os portugueses encarregaram-se da esquerda à direita de mostrar dois cartões, um amarelo a Sampaio, e um vermelho ao PSD. O partido laranja teve o seu pior resultado em todas as eleições até hoje. O PS teve o seu melhor resultado de sempre.

Sampaio esteve mal, em desculpar-se com Santana Lopes. Mais valia estar calado. A falar desse assunto, só podia ser para se penitenciar da asneira cometida. Se não gostava dele, Santana Lopes, por razões institucionais e politicas, não lhe dava posse, sequer. Aquilo que fez depois com Santana Lopes foi pior do que Cavaco Silva fez com José Sócrates. Sei que muita gente não gosta de ouvir isto, mas é aquilo que eu penso.

Estava para escrever um texto sobre José Sócrates e a Operação Marques. Aliás, já o escrevi. Mas como achei que esta passagem do livro de Jorge Sampaio me merecia um reparo, e se enquadra no seguimento do que direi mais tarde sobre o ex-primeiro ministro socialista, resolvi falar deste assunto antes, para que ninguém tente reescrever os factos. Isto, na minha modesta opinião.

 

 

Rui Naldinho  »«  blog Aventar

https://aventar.eu/

 

 

 

 

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