4 frustrantes anos de lamentáveis negociações:

– adiamento sine die!

 

“(…) ouvi é que a Câmara não conseguiu chegar a acordo com a viúva de Bartolomeu Cid dos Santos, sobre os termos do acordo de cedência das obras. Quando, não recordo a data, mas há quatro anos segundo diz, se fez, na Regaleira, aquela cerimónia, onde estavam representados a Câmara e a família, fiquei com a ideia de que tudo estava já acordado. O João sabe-me dizer o que se passou, então?”

[Transcrição parcial de uma questão apresentada por Emília Emilia Reis, hoje publicada sob a forma de comentário ao meu texto “Bartolomeu Cid dos Santos ainda à espera…”]

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Em resposta à pergunta colocada pela minha amiga Emília Emilia Reis, não posso deixar de partilhar convosco certos factos, alguns dos quais até de ordem pessoal, que, espero bem, possam contribuir para tornar mais clara uma situação que, de facto, tem todos os ingredientes para que permaneça em penumbra mais ou menos conveniente.

Começo, então, por recordar que estava eu convalescer de uma intervenção cirúrgica na perna esquerda, na sequência de uma lamentável queda. Pois, ainda que estivesse praticamente impedido de me movimentar na altura da celebração do Protocolo entre a Câmara Municipal de Sintra e Fernanda dos Santos, viúva de Bartolomeu Cid dos Santos, a memória do meu querido amigo impunha-me a presença na cerimónia. E consegui, graças a Deus e ao precioso auxílio do querido amigo Mário João Machado, que me veio buscar a casa para ir até à Regaleira e regressar.

Na sequência das notas publicadas no texto precedente citado na epígrafe, bem posso considerar que o Protocolo foi mais um passo absolutamente decisivo para que se concretizasse aquele que é – recuso-me a usar o verbo no pretérito – um projecto cultural tão importante, não só para Sintra mas também para a área metropolitana de Lisboa e, em geral, para o país.

Poucos meses faltavam para as eleições locais. Então, já com o actual executivo autárquico em funções – embora perfeitamente convencido, tal como Emília Reis, “(…) de que tudo estava já acordado (…)”, ter-se-á verificado que algumas alíneas do clausulado do aludido Protocolo necessitariam de reformulação no sentido de melhor assegurar os interesses da autarquia.

Interessado que estava no processo, procurei inteirar-me e sempre confiei que se tratava de questões perfeitamente ultrapassáveis através de civilizado diálogo entre as partes. Aliás, verificando-se o extraordinário interesse do acervo, a Câmara apenas tem que evidenciar «só» o maior empenho para o sucesso das negociações inerentes.

Tudo solicitava que as mesmas pudessem processar-se com a rapidez conveniente já que estão em jogo, além dos interesses e valores culturais, também os relativos às actividades económicas, nomeadamente, ao nível do turismo, da restauração e do alojamento, interesses da maior relevância para a comunidade.

Não esqueçamos que nos estamos a referir a um pólo cultural que, de acordo com as características desenhadas, só tem paralelo com o que se passa em Cascais com o caso Paula Rego. Bartolomeu Cid dos Santos, tenho-o recordado amiúde, através de textos publicados no ‘Jornal de Sintra’ e nas redes sociais, é um notável das artes plásticas a nível mundial cujo espólio foi objecto do maior interesse e, inclusive, disputado por autarquias nacionais e entidades internacionais de relevância.

Breve parêntesis para lembrar que não deixa de ser curiosa – mas não surpreendente para quem acompanha o universo das artes plásticas em Portugal e além fronteiras – a íntima relação que une os dois grandes nomes portugueses da pintura e da gravura, amigos e cúmplices das mais bonitas aventuras artísticas em Londres. Na capital do RU, durante décadas, na Slade School of Fine Art, a faculdade de Belas-Artes da University College London, Bartolomeu Cid dos Santos, foi mestre dos mais famosos gravadores do mundo, que o referem e reverenciam como grande entre os maiores.

Voltemos ao Protocolo. Já agora, para que possam imaginar a que ponto pode chegar a maledicência, tenham em consideração que até o meu nome serviu para atacar o inequívoco interesse do acolhimento do acervo. É verdade. Estando prevista a figura de um curador da Colecção Bartolomeu Cid dos Santos, houve gente absolutamente medíocre e mesquinha que teve artes de pôr a circular o boato de que todo o meu interesse no assunto se limitava à circunstância de pretender o cargo em apreço…

Tendo-me preocupado com o andamento da questão, de vez em quando, em contacto com o Senhor Vereador Dr. Pedro Ventura, o mais que tenho conseguido saber é que continuam os obstáculos à resolução a contento. A verdade é que, por muito sofisticadas que pudessem ser as cláusulas cuja negociação se impunha com a parte cedente, nada, absolutamente nada justifica que, passados quatro anos, não se tivesse conseguido chegar a um acordo. Um acordo é sempre possível. Basta querer! E, naturalmente, ceder, sem perder a dignidade, e sempre com o objectivo de honrar o interesse geral, o interesse da comunidade.

A verdade é que, não tendo feito quanto seria necessário para levar a bom porto as negociações em questão, a Câmara Municipal de Sintra pôde instalar, à vontade, no edifício do Casino de Sintra, aquela galeria de artes plásticas denominada ‘musa’ que, inequívoca, manifesta e evidentemente, mantém às moscas, às moscas, às moscas !!

Depois do período durante o qual ali esteve instalado o Sintra Museu de Arte Moderna-Colecção Berardo, sob direcção da minha querida e saudosa amiga Maria Nobre Franco, tendo apresentado exposições magníficas, atraindo público que expressamente se deslocou a Sintra proveniente das mais diferentes latitudes, hoje, aquilo é um manifesto da maior incompetência, uma verdadeira aberração que há-de permanecer como bandeira hasteada no poste mais alto desta época negra da vida cultural de Sintra.

Decorreram quatro frustrantes anos, de lamentáveis negociações. Amigos que, tanto como eu, se interessam por estes assuntos, me têm dito que o nulo resultado dessas diligências entre as partes, é o mais conveniente à manutenção do statu quo. Mesmo sem pretender incorrer em qualquer cogitação afim de hipotética teoria da conspiração, quase sou levado a pensar que até terão razão…

De qualquer modo, além de mim – que, como bem sabem todos quantos me conhecem e são mais ou menos próximos, familiares, amigos e conhecidos, jamais pretendi fosse que lugar fosse – há muitos sintrenses que ainda esperam poder ver o espólio de Bartolomeu Cid dos Santos instalado em Sintra, com a dignidade que merece. É nesse grupo que me atrevo a considerar incluída a Emilia Reis. Por isso, pela consideração imensa que me merece, também estas linhas.

 

 

João Cachado  #  blogue Sintra do Avesso

http://sintradoavesso.blogspot.pt/

 

[Ilustr: Bartolomeu Cid dos Santos; Barto, “Atlantis” (1973); Barto, “Quatro Bispos” (1962)]

 

 

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