A apresentação pública dos resultados económicos associados ao turismo costuma obscurecer outras dimensões deste fenómeno complexo, cujo impacto na estrutura urbana dos principais centros turísticos do país, não pode nem deve ser negligenciado.

Não se nega o contributo óbvio desta actividade para o desenvolvimento económico nacional. A perspectiva aqui defendida encara o turismo como um direito de cidadania, um valor da modernidade que deve ser exercido de modo a evitar processos de descaracterização social irreversíveis.

O problema reside, portanto, em saber como se conjuga a sobrevalorização do seu papel com outros interesses legítimos que têm de ser preservados. Ou seja, esta actividade tem de saber conviver num espaço onde se inscrevem relações sócio-económicas plurais, sem hipotecar o seu indispensável equilíbrio.

O Plano Estratégico para o Turismo da Região de Lisboa 2015-2019, da responsabilidade da Entidade Regional de Turismo da Região de Lisboa,  com a participação da Câmara Municipal, é um instrumento precioso, que merece leitura atenta no capítulo respeitante a Sintra.

No meio de uma linguagem rebuscada – “SINTRA – marca com notoriedade, enfocada no seu ambiente único enquanto ícone do romantismo”!, destacamos três prioridades: a) alargamento da centralidade de Lisboa aos concelhos que “pela sua escala e complementaridade de oferta, são entendidos como uma extensão da cidade”; b) divulgação no plano internacional de Sintra como destino de “turismo de aventura, aproveitando as condições naturais únicas proporcionadas pela Serra”, e c) desenvolvimento do turismo residencial.

Todas revelam uma meridiana cultura mercantil e levantam algumas perplexidades.

Quem decidiu que Sintra quer ser uma extensão da cidade de Lisboa? As aventuras turísticas propostas para a serra de Sintra, atrairão aventureiros e aventuras de que espécie e com que consequências? E o aumento do turismo residencial far-se-á à custa de quê e de quem?

Segundo dados do Instituto Nacional de Estatística, em Sintra, a capacidade de alojamentos nos estabelecimentos hoteleiros, por mil habitantes, entre 2009 e 2014 cresceu de 3,7 para 5,7 (65%) e os proveitos totais, para o mesmo período, aumentaram, em milhares de euros, de 21,248 para 32,121 (66%). A Parques de Sintra – Monte da Lua, diz-nos que em 2016, o fluxo de turistas foi superior a cinco milhões de visitantes!

Estes indicadores revelam a massificação crescente duma actividade para a qual parece não existirem limites. E das entidades públicas não nos chegam quaisquer sinais de alarme. Entretanto, o que sabemos é que este fenómeno se repercute directamente no desenho social da Vila, pondo em causa, entre outos, direitos de residência, mobilidade e estacionamento.

É tempo de exigir uma regulação transparente e rigorosa dum sector que não pode ser visto apenas como uma espécie de galinha dos ovos de ouro, e que, nesta lógica, tem sérias probabilidades de se destruir a si próprio.

A Câmara tem os instrumentos jurídicos para intervir. Mas, como sabemos, a vontade política é que conta. Talvez o recente exemplo de Barcelona – limitação do número de camas disponíveis, de construção de hotéis e de licenças de apartamentos para turistas – possa ao menos criar alguma perplexidade aos autarcas sintrenses e despertá-los para uma realidade que é uma caricatura do apregoado “romantismo”.

 

Valdemar Reis

 

 

 

 

 

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