Falar-se de “turistificação” em Sintra é falar-se do presente e do que já era e talvez não volte mais, mas também do que ainda há-de vir, pois pior é sempre possível.

O fenómeno em si mesmo não é nem de perto nem de longe exclusivo de Sintra e já existe há umas décadas um pouco por todo o lado, tendo, contudo, subido exponencialmente em locais que se transformaram de um dia para o outro em destino low cost das carreiras, perdão, das rotas homónimas da aviação comercial, que o diga, desde logo, e à cabeça aqui e agora: Lisboa.

Assim, por tuta e meia e a meia hora de comboio e menos ainda de automóvel alugado, ou não, Sintra ficou ao alcance de todos e está à vista de outros tantos o quanto tem sido objecto dessa tal turistificação. Há já uns poucos anos que o caminho estava traçado, mal a Pena se engalanou à Disneylândia ou o Castelo de Mouros virou campo de “lianas” para arboristas aprendizes de Tarzan.

A “marca” pegou e corropio instalou-se na exacta proporção do turista deslumbrado: novo boom de hotéis desta vez com a novidade musculada dos hostel e airbnb a que não escapam nem as moradias antigas nem o mais lúgubre dos recantos. Junte-se-lhe o enxame valente de tuk-tuk, a “reabilitação urbana” com janelas e portas de PVC e mansardas a condizer, quando não construções descaradamente novas até aqui impensáveis, porque irregulares (veja-se aquele alpendre de pantomina do Central nas barbas de todos) ou contra-natura (que mais dizer da vontade indómita (?) da CM Sintra em levar por diante aquele projecto impróprio de Pousada da Juventude nos antigos edifícios afectos à CP, hoje bem enquadrados na malha urbana e que são perfeitamente recuperáveis?), o fecho de lojas antigas para substituição lojas do Bangladesh, ou por queijadinhas gourmet e do “bairro”, as esplanadas berrando decibéis, a profusão de “arte pública”, etc., tudo isso aliado à cada vez mais sufocante dupla pressão da invasão do automóvel no centro histórico e à gula do imobiliário pelo logradouro ainda resistente.

Já se notam alguns sinais de saturação que, brevemente, alastrarão ao resto da Sintra antiga e à costa: o empreendimento saído das ruínas do palácio da Gandarinha, todo ele digno de case study do que não devia ter acontecido, e aquela única estrada para Seteais e Colares que é uma gincana automóvel em toda a sua extensão, mas a que ninguém acode fazendo-a de um só sentido; são dois exemplos do que espera a São Pedro de Sintra, a Eugaria, a Colares, ao Banzão, à Praia Grande, às Azenhas, se a CM Sintra não disser não a esse tipo de “pugresso”.

Que dirão de tudo isto Byron e Fernando de SaxeCoburgGotha?

 

Paulo Ferrero

(imagem Fernando Castelo)

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