O Turismo é para Sintra a galinha dos ovos de ouro, mas muito há ainda a fazer no galinheiro para que as poedeiras não acabam, e se acabem as lutas de galos.

Um dos principais problemas decorre da capacidade de “vender”, de modo mais eficiente, este destino e satisfazer adequadamente, as exigências da procura turística. Porque Sintra, antes de um destino e de uma paisagem, é sobretudo uma experiência.

A motivação do turista foi evoluindo naturalmente e, para além de absorver a cultura, deseja, cada vez mais, participar na experiência e tornar-se parte activa do produto. Desta forma, o Turismo Criativo como objectivo estratégico pode evidenciar algumas vantagens sobre o “tradicional” Turismo Cultural, tais como adicionar valor em áreas relativas à cultura e, em particular, aos tradicionais produtos culturais, e criar novos produtos, dando-lhes uma vantagem competitiva sobre outros locais.

Deste modo, a criatividade possibilita a criação de novos produtos turísticos para as cidades e regiões, acrescentando valor aos produtos culturais, e garantindo a sustentabilidade dos recursos, não estando subordinada à localização física desses, como acontece com o Turismo Cultural tradicional, permitindo a criação de novas ideias e valores, proporcionando uma experiência que vá além do observar o monumento ou local histórico e dando ênfase à parte imaterial, aos cheiros, sons, imagens, histórias, lendas e memórias do local que se está a visitar.

O sector do turismo tem muito partido a tirar do actual quadro comunitário de apoio, desde que aposte na competitividade, internacionalização e promoção, sendo que mais de 40% dos fundos comunitários são destinados à competitividade e à internacionalização, duas vertentes em que o turismo está e deverá estar bastante presente.

Não basta olhar para os fundos apenas na vertente da construção de equipamentos hoteleiros, mas sim numa lógica de promoção das empresas e dos destinos, com produtos novos, e uma maior rentabilização das vantagens competitivas de cada região. Há pois que alinhar estratégias e financiamento, instrumentos de política pública para o desenvolvimento do turismo e os Programas Operacionais do Acordo de Parceria 2014-2020, contribuindo para uma maior selectividade e articulação de investimentos, tendo em vista uma maior eficácia na aplicação dos fundos comunitários no desenvolvimento do turismo, num quadro que potencie redes e plataformas tendentes à valorização económica do turismo.

Sintra é um dos concelhos onde a actividade turística é central como actividade económica geradora de emprego, beneficiando da sua classificação como Paisagem Cultural da Humanidade, e de um conjunto de factores virtuosos onde se associam paisagem, História, gastronomia, praias e proximidade aos grandes centros urbanos e a um aeroporto internacional.

Aqui se realizam eventos como o Festival de Música de Sintra, a Feira Quinhentista e a Feira Setecentista, o Festival de Estátuas Vivas, o Cortex e o Periferias. Entre as acções de promoção realizadas destaque para a habitual participação na BTL e a promoção do programa Active Sintra, dedicado ao turismo de aventura, a Promoção city & short breaks, e distinções para unidades hoteleiras de Sintra no âmbito da TripAdvisor Travellers Choice Awards, a distinção de quatro monumentos na categoria de “10 Principais Atracções em Portugal”, a distinção do destino Sintra no top das “10 Breathtaking Town in Europe you’ve probably never heard of”, a distinção do Festival de Sintra nos “10 Best Advice for Travelers”, um site associado ao jornal diário USA Today, e prémios para dois vinhos de Colares: o Casal Sta. Maria Sauvignon Blanc 2012, com a medalha internacional de prata no ”Concours mondial du Sauvignon 2014” e o Casal Sta. Maria Arinto 2013, com a medalha de prata no “Concurso de vinhos de Portugal 2014”. Quatro praias do concelho de Sintra foram distinguidas pela Quercus devido à excelência da qualidade das águas, e a European Best Destinations distinguiu Sintra com o 1º lugar na categoria “Castelos Mais Bonitos da Europa” e 4º lugar na categoria “Melhores Tesouros Escondidos da Europa“. Sem ser já novidade, Monserrate foi distinguido como melhor jardim histórico do mundo e a Parques de Sintra como melhor empresa de conservação de jardins históricos.

Em 2014 dispúnhamos de 1691 camas de alojamento tradicional, 78 no espaço rural e de habitação, 723 no campo da hospedagem, 502 em alojamentos locais e 166 em apartamentos, registando os nossos postos de Turismo até ao terceiro trimestre de 2014, 221.857 visitantes. O Palácio da Pena, superando largamente o milhão de visitantes, foi o segundo monumento mais visitado do país.

Manter em qualidade e crescer em quantidade deve ser uma opção estratégica, sendo que os mercados europeus, o brasileiro e os asiáticos são referenciais. A nossa costa é excelente para a prática de desportos radicais, tendo o bodyboard já criado raízes e hábitos no mapa de eventos, captando um nicho de visitantes importante e animação nas nossas praias e zonas balneares, tudo se procurando fazer para trazer outros eventos, e que se possam distribuir ao longo do ano, dinamizando as zonas balneares na chamada “época baixa”, e com benefícios para o comércio local e os alojamentos hoteleiros. Também o segmento do golfe tem grandes potencialidades de expansão, cabendo aqui um papel fundamental aos operadores turísticos e às associações do sector. Destaque para a qualidade de campos como os da Penha Longa, Belas Clube de Campo ou da Beloura, com provas dadas e número de eventos ao longo do ano.

Sintra é uma região bastante heterogénea como destino turístico, seja no plano cultural, balnear ou artístico, estando a surgir novas centralidades em espaços menos usados, como o Museu das Notícias, o Centro Interactivo Mitos e Lendas, e o Centro Cultural Kobayashi, a abrir proximamente.

Também no sector vinícola há potencialidades a explorar. Colares é região demarcada desde 1908 e as características únicas dos seus vinhos devem-se à combinação de castas, solo e clima temperado e húmido no Verão, mas principalmente ao facto da vinha ser plantada em “chão de areia”. O vinho de Colares não é produzido numa área muito extensa, pelo que a sua produção é limitada, mas tem vindo a obter bons resultados no mercado exportador, assim procurando nós que se mantenha, bem como a denominação de origem e o prestígio que lhe está associado.

A gestão da orla costeira é uma área onde a Câmara se tem de articular com diversas entidades da Administração Central. A conjugação mágica de uma serra inebriante com um litoral de praias atlânticas e límpidas, a sensação inesperada de tanto se poder sentir na Baviera ou na floresta tropical, associado a um intenso festival dos sentidos para percorrer demoradamente, fazem de Sintra, como escreveu Vergílio Ferreira, “ o único lugar do país onde a História se fez Jardim.”

No contexto das visitas tendo por destino Lisboa- e agora alargadas com o aumento dos barcos de cruzeiro e a instalação de companhias aéreas low cost no aeroporto de Lisboa-, Sintra tem visto aumentar o número de visitantes, o que, sendo uma boa notícia, deve ser aprofundado no sentido de convencer os operadores e visitantes de que tal período não é minimamente suficiente para apreender e usufruir de tudo o que Sintra tem para oferecer. O aumento do número de visitantes, são realidades que merecem acompanhamento e investimentos sólidos e sustentáveis, bem elaborados, com branding e planos de negócios assentes em estudos aturados. Para tanto, não se pode desperdiçar a oportunidade que o Portugal 2020 oferece nos seus diversos programas, devendo pois os operadores do sector apresentar projectos e apostarem na criação de Futuro, assim virando a página do crescimento anémico dos últimos anos, mas que na área turística felizmente se não fez sentir tão gravosamente. Não há galinhas de ovos de ouro, mas há que aproveitar os ovos para fazer as melhores omeletas.

Sintra complementa a oferta turística da Grande Lisboa, no âmbito do Turismo Cultural, City Break e Golfe e é esse o nicho alvo das actuais políticas locais de apoio ao turismo.

Como é sabido, não é de hoje a ideia instalada de que em Sintra se faz excursionismo, e as dormidas são em Lisboa e Cascais. Tal ocorre por diversos factores, como a perda de interesse de Sintra enquanto destino de praia (tirando o surf ou o bodyboard), a proximidade de Lisboa (para os turistas nacionais), ou a falta de oferta de eventos permanentes, exceptuando o período estival. Para contrariar isso há que apostar em eventos o ano todo (turismo cultural, congressos, residências para artistas, golfe e turismo de natureza) bem como uma diversificação de equipamentos hoteleiros de qualidade intermédia, que satisfaça a procura do turista de bolsa mediana, longe do luxo de Seteais ou da Penha Longa, mas também das pensões bed and breakfast, nicho cada vez mais importante na fixação de postos de trabalho e para o crescimento das dormidas e estadias superiores a 1 dia.

Igualmente se tem descurado um segmento importante no campo da oferta: o campismo (não há um parque de campismo digno desse nome em todo o concelho, aguardando o degradado espaço da Praia Grande pelo tal equipamento de 4 estrelas há muito prometido e consagrado no Plano de Ordenamento do Parque Natural de Sintra-Cascais) e o turismo jovem (desde que encerrou a pousada de juventude em Santa Eufémia reduzido a alguns alojamentos tipo hostel). Também a restauração e a oferta de diversões é dispersa e desnivelada, com amplitudes muito vastas de qualidade e preço, entre o muito bom e caro e o medíocre e igualmente caro. Até lá, Sintra continuará a ter muitos visitantes, é certo, mas sobretudo excursionistas de meio-dia, que por cá pouco consumirão, ou pelo menos, muito abaixo das potencialidades locais de crescimento. A mudança de tal estado de coisas (e que a valorização e recuperação do património edificado deve acompanhar, para mais “vendendo-se” o estatuto de património classificado) é o trabalho interdisciplinar em que todos (políticos, comerciantes, hoteleiros e animadores culturais) deverão estar concentrados.

De acordo com o Plano Estratégico do Turismo da Região de Lisboa para o período 2015-2019, elaborado pela Roland Berger Strategy Consultants, em 2014, foram considerados vectores estratégicos para o concelho de Sintra: a Marca Sintra, Capital do Romantismo; a oferta monumental; o turismo de golfe; o turismo de natureza; a existência e necessidade de uma hotelaria diversificada, e o aproveitamento turístico das quintas.

Segundo esse estudo, 35% dos turistas que visitam Sintra (dados de 2013) fazem-se no regime de visita de um dia (day trip), tendo contudo as dormidas aumentado 8,8% entre 2008 e 2012, e as camas 6,6%, não obstante as dormidas em Sintra em toda a região objecto do Plano não passem dos 3% do total, com 72% dos visitantes a alojar-se noutros locais. Sintra dispunha (dispõe) desde então- 2013- de 137 unidades hoteleiras, num total de 1350 quartos e 2840 camas, tendo tais unidades recebido em 2013 136.500 hóspedes, num total de 290.000 dormidas. No que a visitas concerne, nesse ano a Pena teve 778 mil visitantes, o Palácio da Vila 393 mil, Queluz 124 mil, o Castelo dos Mouros 274 mil, e os Capuchos 33 mil, os museus, um total de 128 mil, (com o Centro de Ciência Viva em destaque, com 46 mil e o Museu Ferreira de Castro com apenas 3359) a Regaleira 285 mil e Monserrate 93 mil, num total esse ano de 2 milhões 162 mil visitantes, com maior afluência em Agosto e menor em Janeiro.

Para os visitantes mobilizados, a oferta de estacionamento contemplava 454 lugares em S. Pedro, 1683 na Portela de Sintra, 358 na Estefânea, 422 na Vila, e 470 na Estação de Sintra.

Com tal quadro fáctico, envolvido por um centro histórico de Sintra despovoado e idoso (em todo o Centro Histórico, incluindo S. Pedro, Vila e Estefânea moram 3483 pessoas, e na Vila apenas moram 386, tendo 129 mais de 64 anos), 166 edifícios a precisar de intervenção urgente e 20 em completa ruína, afigura-se antes de mais ouvir as associações e os moradores a fim de que estes se pronunciem, e, sem umbiguismos ou espíritos de capela, pensando no colectivo e com noção de futuro, e não só no que se passa à sua porta, pensem global e pensem no melhor para Sintra, atenta a sua realidade de burgo encavalitado com uma serra serpenteante e densa a envolve-la, com todas as contingências que isso acarreta.

Como tarefas fulcrais a desenvolver, sob a égide dum órgão coordenador abrangente, com competências claras e executivas, e fundo de maneio próprio e proveniente de fundos e programas de financiamento, sugeriria:

-a promoção de medidas que fixem e tragam jovens e moradores para o Centro Histórico, apostando no arrendamento, e contemplando benefícios fiscais para quem recupere património existente;

-a construção dum Sintra Welcome Center, na Vila Alda ou no Casal de S. Domingos, por exemplo, em localização central, ou no Museu Ferreira de Castro, se este vier a ser deslocado para outro sítio;

-a implementação de sinalética com informação exaustiva, wi-fi e QR codes em todos os locais de relevo;

-o lançamento imediato de obras de recuperação dos imóveis em péssimo estado, ou sua alienação com a condição de recuperação em prazo certo e curto;

-a cabimentação orçamental de verbas destinadas à reabilitação urbana e o lançamento imediato de candidaturas a uma série de fundos nacionais e europeus, onde se pode ir captar cerca de 156 milhões de euros em vários programas operacionais;

-a criação de parques periféricos no Ramalhão, Portela e Estefânea;

-o lançamento de obras na sede dos escuteiros (antiga cadeia comarcã), no mercado da Estefânea (outro local possível para um Welcome Center, semelhante ao que ocorre no Mercado da Ribeira, em Lisboa, com restauração, exposições, espaço internet e venda de produtos tradicionais e biológicos), Parque dos Castanheiros, casa em ruínas na Volta do Duche, Casal de S. Domingos, casa de Francisco Costa, Hotel Netto e todas as casas propriedade da CMS, sobretudo nas Escadinhas do Hospital;

-elaboração dum Plano de Marketing Turístico e Comercial de médio prazo;

-alterar e adaptar as localizações e horários dos transportes públicos e praça de táxis da Vila (com novas paragens e praças junto aos parques periféricos), bem como regulamentar os tuk-tuk’s e operadores turísticos privados, hoje a actuar na sua quase totalidade de forma descontrolada;

-criar uma programação de eventos contínua e adequada às características de Sintra;

-ponderar o futuro do eléctrico, sendo eu particularmente contra a sua continuação até à Vila, pelo impacto no trânsito e pelo impacto visual negativo das catenárias;

-ponderar a não execução do teleférico, pois tal abreviaria a visita a Sintra dos inúmeros visitantes, levá-los-ia apenas à Pena e frustraria a possibilidade de se “sentir” Sintra em benefício dum turismo de massas que não se deve preconizar, sofrendo a vila e a serra já hoje a consequência das hordas diárias de visitantes trazida pelo aumento de viagens low-cost tendo Lisboa como destino primário e Sintra como destino complementar. Além de que dificilmente se encontrará alguém para pagar os 20 milhões de euros previstos para a sua construção;

-ponderar a possibilidade de criação de um posto de informação no Rossio ou no Turismo de Lisboa, especificamente visando Sintra, e onde se possam obter informações prévias e adquirir bilhetes compostos transporte-visita para os visitantes que pretendam visitar Sintra;

-regulamentar os tuk tuk, visitas guiadas e operadores espontâneos que de forma muitas vezes anárquica se encavalitam à porta da estação da CP, dando uma imagem de kasbah marroquina;

-replantar árvores na Praça da República, e classificar todo o arvoredo da zona da ARU como de interesse municipal, impedindo cortes, e promovendo apenas os que decorram de parecer fitossanitário devidamente fundamentado;

-criar novas zonas e percursos pedonais (sem corte de trânsito, ou corte parcial) junto ao Pelourinho da Vila, no largo fronteiro à Câmara, e na Rua Alfredo Costa;

-transferir o GAM e o Espaço do Cidadão para a Rua Heliodoro Salgado;

-reformular o trânsito na Rua Heliodoro Salgado, e promover a rectificação paisagística da rotunda na Av. Nunes Carvalho;

-ordenar o trânsito e o estacionamento de forma gradual e experimental, com abertura a alteração de soluções, sempre que as adoptadas se não mostrem totalmente eficazes;

-criar uma zona de parqueamento de caravanas no Ramalhão, Chão de Meninos ou junto ao Tribunal;

-uniformizar o mobiliário urbano e remover as antenas obsoletas;

-relocalizar os caixotes do lixo e os ecopontos;

Estas, sem ser exaustivo, nem descurar outras soluções, algumas sugestões para um plano a executar em vários anos (10 a 15) e para o qual se podem canalizar verbas do Portugal 2020, do Reabilitar para Arrendar, Life+2014-2020,Fundo Jessica, Plano Nacional de Acção para as Energias Renováveis, Fundo Português do Carbono, e outros.

A Primavera está prestes a colorir Sintra e odorizar os seus recantos e quintas, e com ela aí estarão de novo (se é que deixaram de estar, com o recente aumento exponencial das low cost e dos cruzeiros) os visitantes ávidos deste pedaço de Paraíso prometido. Muito se promete, mas de promessas está o Inferno cheio. Não há decisões perfeitas e quem faz corre o risco de errar, há contudo que ter a moderação de ser radical, ou ver a galinha secar e os ovos de ouro fenecer e virarem descoloridas pedras.

 

Fernando Morais Gomes

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