Quando discorremos sobre turismo somos, quase de imediato, “transportados” para locais cuja reminiscência que concebemos assenta em referências materiais ou intangíveis que, no seu todo, formam a identidade única de cada destino, a personalidade daquele lugar. Serão todas essas particularidades que nos impactarão de forma positiva ou negativa conforme correspondam, ou não, à expectativa que formulámos. Será por aqui que podemos abordar “turistificação”, como neologismo que, pessoalmente, entendo como a descaracterização e desqualificação do turismo e da qualidade que se lhe exige.

 

 Sintra está a tornar-se um exemplo deste novo conceito. A turistificação de Sintra é uma realidade enfermando de uma clara estratégia de proteção do turismo e das virtudes naturais, patrimoniais e qualificadores das diversas singularidades que a transformam num local impar. A especulação imobiliária, a falta de mobilidade, a ausência de articulação entre turismo, cultura, segurança, obras públicas e outras áreas fundamentais na preservação das suas características únicas transformam uma visita ao centro histórico numa verdadeira aventura e provocam uma experiência negativa nos visitantes.

 

 Há uma voraz apetência pelos números, pela massificação como se fosse esse o sucesso ou o caminho a percorrer. Não é! Não pode ser esse o objetivo. Utilizando analogias contemporâneas, Sintra não é, nem pode ser, um hipermercado ou um Centro Comercial. Sintra não é uma Cidade Sonae é a Vila Romântica; Sintra não é os autocarros de gente e os automóveis que enchem e contaminam a Volta do Duche, a Estefânea, o Centro Histórico, qual hora de ponta no IC19Sintra;

Sintra é a harmonia entre a sua enorme diversidade! Sintra é as pessoas, os sintrenses, que a viveram, que a vivem e sentem; Sintra é o comércio tradicional, os travesseiros, as queijadas, os produtos saloios; Sintra é a história, “estórias”, contos e lendas, o romantismo, Monserrate ou a Regaleira; Sintra é a charrete, o elétrico, os trilhos; Sintra é a serra, a praia, a monumentalidade envolta no misticismo incomparável da natureza que a povoa.

 

Vivemos na azáfama dos dias, distantes demais de uma realidade que vai espartilhando a Sintra que conhecemos e que amamos, mas que, por esse afastamento, não defendemos e vamos deixando ao sabor de decisores que nos atafulham com números mas esquecem que a identidade de Sintra faz parte dos brinquedos da nossa infância e não as “news” da aldeia global, que poderiam ficar numa qualquer metrópole ou inseridas em outros projetos massivos que não cabem no sopé do Castelo à vista da Pena!

 

 

 

Carlos Miguel Saldanha

 

 

 

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