O turismo em Sintra, que pela sua riqueza paisagística e edificada lhe valeu a justa classificação de Património Mundial, na categoria de Paisagem Cultural, não pode ser tratado tendo em vista apenas o aumento do número de visitantes e os consequentes lucros financeiros. Ou seja, não se pode falar, e reflectir, sobre o turismo em Sintra, numa perspectiva puramente economicista, repetindo os erros que foram cometidos noutras regiões do país nos anos 80, onde em nome do paraíso se permitiu a construção de infernos mimetizados. Tanto seria um erro não aproveitar as características únicas e diferenciadoras do concelho, especialmente da sua zona histórica, como é um erro continuar a permitir um turismo massificador, um turismo predador que, tal 11ª praga do Egipto, está a tornar-se numa calamidade.

 

Sem a pretensão de nesta crónica, abordar as várias vertentes do problema, elegeria apenas três aspectos que me parecem importantes, se não mesmo basilares. Refiro-me às acessibilidades, à mobilidade e ao despovoamento da zona histórica e Estefânea*. Em relação à primeira são conhecidos os estrangulamentos provocados por uma permissividade, cúmplice, do acesso automóvel ao Centro, às cercanias dos monumentos, até no cruzamento pela Serra. A concretização dos mil vezes prometidos parques de estacionamento, nas entradas de Sintra, com a função de filtrar a afluência motorizada, passam de Executivo para Executivo. Os parquímetros sempre vão facturando, e a instalação dos parques implicava, por exemplo, uma articulada e eficaz rede de minibuses não poluentes, nem ruidosos que, como serviço público, provavelmente não davam lucro financeiro, mas com o qual lucravam, em qualidade, visitantes e moradores. Como consequência imediata desta promessa nunca cumprida – que faz parte das clássicas em tempos eleitorais -, a circulação de automóveis e transportes “turísticos” no casco histórico, é histérica, agredindo e poluindo, no sentido literal, pessoas e paisagem e dando um toque muito original à “marca”, Sintra Capital do Romantismo…

 

Por fim, se não é o mais dramático é muito, muito preocupante o galopante despovoamento do Centro Histórico e da Estefânea. Ou porque se sentem agredidos no seu direito à privacidade, ao sossego e vida normal e bem-estar (chegar a casa, ir às compras, estacionar, etc), os moradores vão saindo, resistindo os mais velhos por ausência de opções ou por recusa ao desenraizamento. Então, onde moravam famílias durante vidas, nascem “unidades hoteleiras” sob toda uma série de heterónimos, destinadas ao aluguer sazonal. A alegada falta de camas, tudo justifica e o fenómeno alastra a uma velocidade vertiginosa, suponho que devidamente legalizado e com receitas, municipais e particulares, asseguradas. Nesta escalada irracional, louvam-se os milhões de visitantes, os rankings manhosos e esquecessem-se as pessoas e as suas raízes. Qualquer dia, os poucos moradores fazem de figurantes para a fotografia ou, na falta deles, contratam-se substitutos através daquelas agências que organizam as assistências, em alguns programas televisivos.

 

Não vou cair no ridículo de dizer que a culpa é deste Executivo, porque estava a fazer a mesma, triste, figura dos que remetem todas as responsabilidades pelo que não foi feito, para os 12 anos anteriores. A questão é política, ou da ausência de uma política articulada – como está a ser aplicada em várias cidades europeias -, intransigente às pressões tentaculares dos agentes turísticos, particulares e públicos, que saiba retirar partido dos recursos que a natureza e o passado nos legaram, sem destruir esses mesmos recursos nem expulsar as pessoas do seu meio, gerando assim “não lugares” – no sentido em que são lugares de passagem e desprovidos de vida  enraizada, quando podiam ser de convivência entre paisagem, moradores e visitantes.

 

João de Mello Alvim  »«  blog Três Parágrafos

 

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(imagem Fernando Castelo)

 

 

 

* Como João de Oliveira Cachado, Fernando Castelo, Fernando Morais Gomes e muitos outros, vêm sistematicamente alertando há anos.

 

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