Já trintão, enquanto área protegida por quem de direito, o Parque Natural de Sintra-Cascais chegou a um impasse, talvez mesmo à sua bifurcação terminal: ou bem que deixa de ser letra morta ou bem que é melhor declará-lo morto.

Na verdade, os seus objectivos primeiros eram demasiado vagos e ingénuos (1. Gestão racional dos recursos naturais e paisagísticos. 2. Promoção do desenvolvimento económico e do bem-estar das populações. 3. Salvaguarda do património arquitectónico, histórico ou tradicional da região. 4. Promoção de uma arquitectura integrada da paisagem) para alguém mais informado os tomar por reais, até porque entre uns e outros não é certa a inexistência de incompatibilidades práticas, desde logo o 2º é/pode ser inimigo dos demais, e assim tem sido.

Se olharmos para a área de implantação do Parque, de Norte a Sul, a Este e Oeste, damo-nos conta da barbárie que foi sendo promovida, permitida e incentivada nos últimos 30 anos. O rol é imenso, ficam os casos mais gritantemente evidentes:

Extensão da auto-estrada do Jamor. A Urbanização do Abano. Descaracterizações urbanísticas irreversíveis na Praia das Maçãs, nas Almoínhas, na Qtª da Marinha e na Guia. As urbanizações da Gandarinha e na Torre. A Marina de Cascais. A Urbanização da Penha Longa. As “desmatações” na Serra de Sintra. Os incêndios “espontâneos” na Malveira da Serra, Abano, Guincho e Cabo Raso. A auto-estrada Alcoitão-Sintra. A pulverização de restaurantes na Estrada do Guincho, na Praia Grande. Os arboricídios nos centros urbanos de Sintra e Cascais, nas E.N., etc. O abandono declarado das colónias de férias da Praia Grande e do Banzão. As urbanizações das Qtª Patiño e Beloura, mesmo na fronteira da área protegida. O desprezo absoluto pelo património edificado com mais de 50 anos. Os carros, os carros.

Trinta anos depois, resta muito pouco passível de almejar no que toca aos objectivos fundadores do Parque. Ela é toda uma paisagem natural, paisagística e histórica cada vez mais irreconhecível, vulgarizada e impossível de resgatar, com muito pouco de que nos orgulhar:

O património à guarda da Monte-Lua, com os seus os defeitos e, sobretudo, as suas múltiplas virtudes à vista de todos. O mar. As praias em que ainda não se paga. As arribas. O Cabo. O Banzão, as Azenhas do Mar, Santa Marta. A Serra. Os vales desconhecidos, até dos promotores imobiliários. E os microclimas únicos: a cada vez menos suficiente auto-protecção do próprio Parque.

 

Paulo Ferrero

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