Quando era miúdo a Maria Almira Medina era presença assídua lá de casa. Não que nos visitasse com frequência, mas a sua condição de artesã do ofício de ensinar fazia dela personagem quotidiana das histórias do professor residente.

A primeira arte que lhe conheci foi a da cidadania e do amor a esta Sintra que escolheu como sua. Só mais tarde me inteirei da de escritora e poetisa, de pintora, de ceramista e de mulher que, apesar da frágil aparência, semeava desinquietação estética e cívica.

 

Almira entrava-nos pela caixa do correio todas as semanas, no cabeçalho de um jornal que trazia velharias de Sintra e actualidades da terra. Uma publicação de boa memória, que passei a ler com mais atenção quando foi preciso arregaçar as mangas em defesa da Cadeia Comarcã.

Não me recordo ao certo quando tive o privilégio de a conhecer pessoalmente. “Sabe que eu gosto muito de enfermeiros…” era a fórmula de abertura para conversas habitadas por surrealistas, caricaturas polémicas, encontros literários ou revistas de vanguarda.

Um dia levou-me ao seu atelier e mostrou-me tudo o que por lá tinha. A certa altura, entra em cena um colete que andava a costurar para um amigo. Dissecou-o à minha frente, revelando o verso e o reverso do assunto, as cornucópias do tecido e as imperfeições do remate…

Enquanto a ouvia, dizia para com os meus botões “esta mulher tem quase 80 anos, uma vida e obra incríveis e está aqui, com a alegria de uma rapariga que ainda tem tudo para aprender, a contar-me as mais novas descobertas da arte de trapeira…”.

O legado de Maria Almira Medina, a sua obra e passagem por Sintra, são marcos incontornáveis do nosso património comum. Mas maior herança que deixa a quem com ela se cruzou é, talvez, essa alegria de olhar as coisas, uma inspiração que nos deve guiar.

 

André Beja (texto e foto)

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