“Descobri” a Maria Almira em Sintra há cerca de 8 anos. Digo descobri, porque até aí apenas lhe sabia o nome, que surgia aqui e ali, em poemas ditos por colegas do teatro.

Logo ao primeiro contacto ofereceu-me a sua vida com as duas mãos abertas e inteiras: contava-me da casa, dos anseios, da Vida (enorme!) que tinha dentro.

 

 

Aos 95 anos continuava a ter planos para livros, para viagens, para conversas, para projectos.

 

Quando terminou o Liceu já dava aulas. Foi a única, de Sintra, no seu ano, a ir para a Faculdade. Cursou Letras por “não ficar bem a uma menina pintar nus” nas Belas-Artes. Aos 20 anos andou pela cidade. Foi nela que conviveu com Zeca Afonso, Almada Negreiros, Sarah Afonso, Manuel da Fonseca, Agostinho da Silva, Maria Judite Carvalho, Urbano Tavares Rodrigues – tantos da sua geração.

Ela, que como eles era artista multifacetada.

 

– “Quis ficar por Sintra… ninguém me conhece!”

 

Confesso que tive esperança que na sua longa vida tivéssemos tempo de ir contra a corrente e os costumes, de contrariar as hostes e de lhe fazer jus em vida.

Vários espaços foram prometidos para reunir o seu espólio, acumulado em caixas, à mercê da humidade de Sintra e de promessas não cumpridas…esperanças constantemente roubadas a quem não deixava de ter os olhos brilhantes de uma “menina girassol”, que apenas queria um espaço para continuar a ensinar como sempre fizera – aprender.

 

Num dos últimos dias em que a visitei disse-me num sussurro: “Sabes, o mundo está cada vez mais estranho e eu, estou imobilizada, mas não fico quieta… sinto-me triste! Quero continuar a lutar… não foi para isto que gritei por Liberdade! O mundo anda estranho, mas eu continuo atenta!”

 

Lutou! Lutou sempre, pela Vida – aquela de dentro, que nunca ninguém lhe tirou.

 

 

Carla Dias

(Título da responsabilidade do editor)

 

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