Não tive o privilégio de conhecer pessoalmente Maria Almira Medina e, colocado perante o desafio de escrever sobre um dos maiores vultos da cultura sintrense, procurei aprofundar conhecimentos sobre a sua vida e vasta obra nos vários domínios da sua atuação. Mais do que a fascinante aprendizagem fiquei com algumas preocupações e reflexões que aqui resolvi partilhar.

 

A primeira consideração, que justificará o resto da prosa, é a de que não serei eu a pessoa mais indicada para escrever sobre alguém que marcou, nos últimos 70 anos, a vida cultural de Sintra de forma vincada e permanente. Haverá, decerto, inúmeras personalidades mais habilitadas para o fazer com propriedade e à altura do incomensurável e valioso legado que nos deixou.

Daqui resulta a maior das preocupações.

Onde e como pode alguém, como eu, conhecer a herança dos principais vultos da cultura sintrense que lhe conferem, ou deviam conferir, uma identidade comum e transversal a todas as localidades do concelho?

Ao longo da história Sintra foi inspiração de inúmeros escritores e artistas consagrados, de Eça de Garret, Herculano ou até, além-fronteiras, da pena de Byron ou Hans Christian Andersen e dos sons de Strauss. Mas acima de tudo foi berço e acolhimento de figuras incontornáveis como Chaby Pinheiro, Ruy Belo, Leal da Câmara e, claro, quem nos trouxe a este escrito, Maria Almira Medina, mencionando apenas uma pequena amostra dos edificadores do vasto património que carece de uma política cultural dinâmica e empreendedora que honre os pergaminhos de Sintra e perpetue a nossa memória e identidade. Por isso, urge valorizar os bens humanos, materiais e intangíveis que tantos nos deixaram e encontrar meios de transmitir, no tempo e no espaço, o conhecimento coletivo.

Saliente-se a missão da Associação Alagamares e da Parques Sintra Monte da Lua que têm desempenhado papel fundamental, colmatando graves lacunas da edilidade nos últimos anos, neste campo, totalmente descurado por Presidente e Vereador responsável pelo pelouro. Não surpreende. Todavia, há espólios riquíssimos esquecidos em arrecadações ou casas trancadas que deveriam ter mais nobre tratamento e conservação e serem colocados ao serviço da comunidade, à disposição da população. Com o advento dos grandes aglomerados urbanos do concelho sobreveio uma ainda maior necessidade de reunir, em local condigno, a herança das gentes de Sintra e dos seus “feitos”, um Museu de Cultura Municipal, da mais erudita à popular tradição saloia, onde o passado encontre o futuro.

Terminarei com palavras de Albert Camus:

“Sem a cultura, e a liberdade relativa que ela pressupõe, a sociedade, por mais perfeita que seja, não passa de uma selva. É por isso que toda a criação autêntica é um dom para o futuro.”

E com a percepção que homenagear verdadeiramente Maria Almira Medina, no dia em que se cumpre um ano do seu desaparecimento, é honrar uma das suas mais importantes facetas e, assumir, todos nós, a batalha pela causa e pelas “coisas” da cultura em Sintra.

Carlos Miguel Saldanha (texto)

Foto Emília Reis (Sala da Folha, Colares, Maio de 2015)

 

 

 

 

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