No próximo dia 18 faz um ano de silêncio sobre a morte, física, da Maria Almira Medina. Palavras sentidas e outras de ocasião, foram proferidas, mas acções concretas para preservar a memória tangível desta sintrense adoptiva, perderam-se nos labirintos das intenções. Se não se pode atribuir a responsabilidade ao Executivo em funções, este não está isento pela ausência de uma estruturada política cultural que vá além da árvore das patacas do turismo, do entretenimento e da política dos três cês: cortar, controlar e condicionar.

 

Não é minha intenção falar sobre a Mulher nem sobre a criadora multifacetada que marcou a vida social e cultural em Sintra durante décadas e décadas. Outros já o fizeram, e bem, chamando a atenção para essas marcas que ultrapassavam a geografia sintrense. As suas relações com o movimento surrealista, neo-realista e desalinhados, a produção poética e de artista plástica, a sua intervenção política e cívica proporcionaram-lhe todas as condições para a afirmação no panorama da cultura nacional. Mas a irrequieta, a indomável e, por vezes, teimosamente irritante Maria Almira, optou por Sintra e em Sintra ergueu o grosso da sua obra.

De todo este labor, muitos foram os privilegiados que dele comungaram – reivindico o meu quinhão muitas vezes ganho à custa de fortes discussões que tanto eclodiam como passavam, como trovoadas de Maio. Mas quem mais ganhou foi Sintra por contar, entre os seus, com uma personalidade tão marcante, com uma obra cívica e artística, tão variada. A Maria Almira fazia/faz parte do Património Cultural de Sintra, do património cultural edificado, não em pedra, mas em acções, palavras, telas, papel, tapeçarias e sei lá que mais.

Depois de um ano de silêncio, se a memória intangível perdura, grande parte da memória tangível está encaixotada num armazém de um amigo da família, em Fação. Desafinações familiares criaram este impasse, a passividade do Executivo alimenta-o. Naturalmente que não se pode imputar a responsabilidade a este último pois, a vontade e acerto de vontades na família, está a ser um factor bloqueador. Nem também defendo que cada personalidade marcante da vida sintrense, que deixe um espólio variado e único, tenha a sua casa-museu, a não ser, como acontece, com espaços que anteriormente serviam de residência – lembro-me do Mestre Anjos Teixeira, de Leal da Câmara e aceito a excepção de Ferreira de Castro. Mas uma política cultural concebida como bem necessário para o desenvolvimento da comunidade, e, como tal, que não seja decidida pelo deve-e-haver das finanças (como é a política dos “três cês”, implementada pela actual “comissão liquidatária”, Basílio Horta/Rui Pereira), devia mediar, situações de impasse como a do espólio de Maria Almira Medina, e accionar e dinamizar uma Casa-Museu de Vidas (há tantos espaços camarários, desaproveitados ou sub-aproveitados por esse concelho fora) para acolher espólios raros como o da Maria Almira ou do poeta Ruy Belo – que também tem parte encaixotada na sua antiga casa em Monte- Abraão.

 

João de Mello Alvim  #  blog Três Parágrafos #  Foto de Pedro Macieira (Chalet da Condessa, Março 2008)

 

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