Volvidos cerca de 20 anos sobre o reconhecimento de Sintra como Património Mundial, pela UNESCO, o que mudou?

Foi somente há pouco mais de 20 anos que passei a residir permanentemente no concelho, nos limites daquilo que é hoje denominado como “Parque Natural de Sintra-Cascais”.

Para mim foi-se tornando claro que existem duas Sintras: Uma Sintra “turística” e uma Sintra “urbana” – ou melhor dizendo “suburbana” – Dir-se-ia que a Vila de Sintra e o Concelho de Sintra são duas realidades paralelas que convivem a custo.

Relativamente à primeira – A Sintra turística – o reconhecimento pela UNESCO colocou em marcha uma série de acções que tiveram um impacto muito positivo, sobretudo ao nível da recuperação do património arquitectónico e paisagístico da chamada “Sintra Romântica”. Lembro-me nitidamente do estado de abandono e degradação em que a maior parte do património mais emblemático dessa Sintra se encontrava nos últimos anos da década de 80; a situação que encontramos hoje não tem, diga-se em abono da verdade, a menor comparação. Existem hoje uma série de pólos patrimoniais – sobretudo os que estão sob a égide da empresa “Parques de Sintra” – que são bem administrados, geram receitas e isso é naturalmente uma coisa boa. No entanto, tudo isto foi alcançado espoliando os sintrenses desse mesmo património. Os preços cobrados para o acesso são ridiculamente elevados para o bolso médio nacional e as “aberturas” para os munícipes – gratuitidade aos domingos de manhã – são manifestamente insuficientes. O turismo internacional tomou conta de toda esta Sintra, gerando bons rendimentos para alguns mas expulsando dela os locais e descaracterizando-a irremediavelmente.

Tudo isto se foi passando com a conivência dos sucessivos poderes locais. Ainda se poderia pensar que um poder local astuto usaria os proveitos desta exploração (encarando-a como um mal necessário) para financiar investimentos concertados na melhoria real da qualidade de vida dos munícipes. No entanto, investimentos megalómanos ou de rentabilidade duvidosa, como o eléctrico da praia ou o – felizmente cancelado – teleférico para a Serra, são elucidativos de um certo desnorte reinante.

Quanto à segunda Sintra – a suburbana – quase nada mudou como consequência directa desta elevação a património mundial. Estávamos nessa altura precisamente no auge de uma incontrolada expansão urbanística que continuou a reinar incontestada e que apenas a crise de 2008 veio travar a fundo. O investimento em pólos culturais, lúdicos e desportivos foi sempre insuficiente e o desinvestimento na rede de transportes públicos um acto indesculpável.

O que é que estas duas Sintras têm em comum? Tanto a pobre como a rica estão descaracterizadas; uma, entregue a uma anemia suburbana de que não consegue sair, a outra ao frenesim da visita guiada e do turismo enlatado. Quanto ao resto, o fosso que as separa não diminuiu…

 

António Marques, texto e foto / convidado

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