As vagas de rumores sobre eventuais envolvimentos de agentes políticos nos corredores do compra-e-venda das influências, os chamados sinais exteriores de riqueza, assim como, praticamente, a inexistência de punições, criou uma imagem de que os políticos são, necessariamente, corruptos e, mais ainda, contribui para que a corrupção seja aceite de forma quase natural, ou seja, um eleito para um cargo público, mais cedo ou mais tarde “é natural” que ceda à máxima, “o poder corrompe”. As autarquias não são excepção, Sintra não está fora desta generalização.

Em Sintra, quantas histórias sobre trajectórias duvidosas, não ouvimos acerca de A,B ou C; sobre os “senhores 10%”; sobre quem nunca se lhe conheceu uma profissão, quando iniciou a sua prática política, mas, materialmente falando, têm um percurso de vida ascendente apoiado no cartão partidário e aventais maçónicos ou paramentos da Opus-Dei? Uma mistura inclusiva que dá substância à casta do bloco central de interesses, que continua vivo e activo.

Se os partidos são os pilares da democracia -o que não pode excluir a existência de outras formas organizadas de participação na vida na polis -, os partidos são também, em grande parte, os responsáveis pela existência de cancros que minam a democracia, afastam os cidadãos do exercício dos seus direitos de cidadania e dão margem à generalização de que “os políticos são todos corruptos”. E são responsáveis, porque pactuam (por medo ou conveniência) com o nepotismo, o clientelismo, o tráfico de influências, a fraude e o enriquecimento ilícito. Porque incentivam a obediência ao(s) chefe(s) em vez da discussão política e, cada vez mais, são permissivos à entrada de “militantes”, sem qualquer filtro ideológico, para fortalecer sindicatos de voto que têm por único objectivo esmagar os opositores internos e ascender e consolidar o Poder.

Compete às organizações políticas que se revêm na democracia participativa, e não na democracia de fachada assente no clubismo e nos ciclos eleitorais, fazer a limpeza dos “estábulos de Augias”* . Compete aos cidadãos, através de estruturas (políticas, culturais, sociais, etc), ou individualmente, o combate a este abastardamento, sem, no entanto, cair na tentação de lançar labéus, mas denúncias sustentadas. De contrário, o efeito pode ser exactamente o inverso do pretendido. Colocar em causa o bom nome, até de quem votou contra a Constituição, pode gerar vitimizações e solidariedades (tão bem-vindas em pré-campanha), como está a acontecer com a “denúncia ou participação criminal” movida pelo Executivo, liderado por Basílio Horta, contra o cidadão Pedro Ladeira, pelos seus comentários, na minha opinião irónicos e sem base para processo criminal, publicados na página do Facebook do vereador Marco Almeida, a 19 de Setembro último.

 

 

João de Mello Alvim  #  Blog Três Parágrafos

tresparagrafossegundaedicao.wordpress.com

 

*” Na mitologia grega, grandes estábulos do rei da Elida, Augias, que não foram limpos durante muitos anos e que foram limpos por Hércules num só dia. A expressão «estábulos de Augias» tornou-se sinónimo de acumulação de todo o tipo de imundície e lixo ou de estado de extremo

abandono e desordem”, in Diccionário Político https://www.marxists.org/portugues/dicionario/index.htm

 

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